Atualizado em 24/04/2026 – 17:14
Quando estive na Argentina, em 2014, compartilhei apartamento com uma colega que era de lá, resultando no meu sotaque argentino fluente em palavrões e curado a mate suave com açúcar. Sim, eu cometia esse pecado, mas foi esse pecado que me fazia ir com regularidade ao banheiro, já que me entupia também de alfajor de maicenae purê de batata. Morávamos em Villa María, no interior de Córdoba, e, na época, o único café que a gente encontrava para comprar era moído com açúcar (e essa atrocidade eu não recomendo). O meu humor sem café não era dos melhores, mas minha companheira de casa também oscilava de humor como eu, então nós nos demos bem.
Aqui na Espanha, a minha companheira de 8 anos também oscila de humor, tem dias em que me deixa louca, mas a gente tem seguido bem no nosso ritmo. A diferença é que agora o café é gostoso, e nós, dentro de casa, nos falamos em português. Ela vive o contato direto e contínuo com a língua na escola e me ensina expressões como “quéchulo”, “qué mono”. Outro dia, saí de uma oficina que ofereci ao centro de investigação em que estou atuando e falei por três horas em espanhol, sem parar. Quando fui buscar a criança na escola, comentei que estava cansada de pensar tanto tempo em outra língua, e ela me lembrou que faz isso todos os dias.
É verdade que há certa predileção ao drama na minha pequena escorpiana, que está convivendo com as delícias e saudades de viver longe do seu país de origem, mas ela me lembrou como é solitário o processo de aprender uma língua estrangeira. Por mais antagônico que pareça, viver em outra língua faz com que a gente se conecte com a nossa identidade, encontre modos de dizer antigos na língua materna, visite as gírias e vocabulários que estão na moda, e que muitas vezes nascem do próprio contato com estrangeirismos. É de outro modo, porém, que essa conexão acontece; aprender uma língua nova estando imersa nela vai abrindo espaço para a gente ser também na língua nova.
A tranquilidade com a qual me garanto no espanhol não se repete no inglês, por exemplo. Outro dia, voltei a ter aulas de inglês, e como é difícil ser a gente mesmo quando não temos habilidades linguísticas para fazer piada. Por mais que, durante as aulas, os processos de formação de frase sejam exercitados, e ainda que, através de uma metodologia dinâmica, é difícil repetir a espontaneidade do cotidiano. Isso requer uma imersão e esforços intensos: a gente espontaneamente ser em uma língua que não seja a nossa. De algum modo, sinto que uma identidade outra é criada junto à nova língua, num modo que faz a gente ir sendo à medida que vai aprendendo.
Além disso, mais do que estar atenta às mudanças da língua e à relação que temos com o que entendemos por identidade, que costuma ser muito subjetivo, a gente se coloca de novo no lugar vulnerável que é ser aprendiz, e isso requer um exercício imenso de escuta. Acho que é pelo ouvido que a gente expande a nossa linguagem. Pela escuta, a gente permite que a língua do outro encontre aquela que nos originou. Desse encontro, não saímos ilesos, ainda bem.

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