Atualizado em 23/06/2026 – 08:54
Miguel Arraes ocupa um lugar central na história do PSB. Foi uma das primeiras vítimas do golpe de 1964, cassado logo nos atos iniciais da ruptura democrática e exilado por quatorze anos. Sua trajetória política foi marcada pela defesa da democracia, da justiça social e da redução das desigualdades.
Por isso, a recente votação sobre a derrubada do veto presidencial à chamada lei da dosimetria produz um contraste difícil de ignorar.
Entre os doze deputados federais do PSB que participaram da votação, apenas um apoiou a derrubada do veto presidencial. A medida reduz as penas dos líderes da tentativa de golpe de Estado condenados pela Justiça. Esse voto partiu do capixaba Paulo Foletto.
Enquanto toda a bancada socialista se posicionou contra uma proposta vista por muitos como um benefício aos responsáveis pelos ataques à democracia brasileira, Foletto seguiu caminho oposto. Mais do que uma divergência parlamentar, trata-se de uma posição que colide frontalmente com a história política do partido e com o legado de uma de suas maiores referências.
Mas o episódio não termina aí.
O PSB capixaba decidiu receber em seus quadros o deputado federal Vitor Linhalis, que também votou a favor da medida. Em vez de produzir constrangimento ou debate interno, a aproximação foi celebrada pela direção estadual do partido.
O resultado é que o PSB do Espírito Santo passa a abrigar dois parlamentares que votaram pela redução das penas de condenados envolvidos na articulação golpista que, segundo as investigações, incluía até mesmo planos contra autoridades da República, entre elas o vice-presidente Geraldo Alckmin, filiado ao próprio PSB.
A questão que surge é simples: como os dirigentes do partido no Espírito Santo interpretam essa situação? Como veem a decisão de seus parlamentares? E como compatibilizam essas posições com a história de Miguel Arraes, cuja vida foi dedicada justamente à defesa da democracia contra aventuras autoritárias?
Talvez essas perguntas mereçam resposta.
Caso haja dúvidas sobre quem foi Arraes e o que ele representa para o socialismo democrático brasileiro, basta recorrer ao próprio partido. No site oficial do PSB está registrada a trajetória daquele que inspirou gerações de lideranças socialistas, entre elas Eduardo Campos e João Campos, atual presidente nacional da legenda.
Afinal, partidos políticos não são apenas siglas eleitorais. São também herdeiros de histórias, valores e compromissos. E, vez ou outra, precisam decidir se continuam honrando esse legado.

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