Atualizado em 07/08/2026 – 19:43
Um dia depois de anunciar o afastamento do fundador Fernando Antonio Kulnig Cinelli por “inconsistências financeiras”, o Grupo Apex Partners foi à Justiça. Em petição protocolada na Vara de Recuperação Judicial e Falência de Vitória, a plataforma capixaba de investimentos pede uma tutela de urgência cautelar antecedente, medida que antecipa efeitos de uma recuperação judicial que o próprio grupo se compromete a requerer em até 30 dias.
O documento, assinado pelo escritório Finamore Simoni Advogados, traz pela primeira vez a dimensão do problema que o comunicado da véspera não quantificava. O endividamento apurado em caráter preliminar, com data-base de 30 de junho de 2026 e sujeito a reconciliação contábil, alcança aproximadamente R$ 985,6 milhões.
O grupo pede a suspensão, por 60 dias, da exigibilidade de todas as suas obrigações financeiras, além da suspensão de execuções, da proibição de protestos e do bloqueio de travas bancárias. A petição é explícita quanto ao que não pede: “Não se pede, aqui, recuperação judicial.” O que se requer, segundo o texto, é tempo protegido para que uma diligência contábil-financeira conclua o levantamento da real situação patrimonial do grupo.
O próprio documento faz uma ressalva importante. Os elementos apresentados vêm de informações de caráter autodeclaratório, sem auditoria externa concluída, e são reportados como elementos que justificam a diligência, “e não como conclusão sobre fraude, simulação ou irregularidade”.
Os números
A dívida líquida consolidada saiu de R$ 413 milhões, em janeiro de 2025, para R$ 975 milhões, em junho de 2026. Segundo a petição, no primeiro semestre deste ano, de R$ 300 milhões de dívida nova, 58 por cento não correspondeu à formação de qualquer ativo.
O saldo de debêntures soma R$ 452,1 milhões, em séries emitidas por intermédio da Rhino Securitizadora. A garantia declarada consiste em ações da própria Apex Partners e da BRM Apex Investimentos, participações do próprio grupo emissor, sem que haja, até o momento, avaliação independente ou evidência de formalização registral do penhor.
Há ainda R$ 309,8 milhões distribuídos em 1.600 posições de clientes com possibilidade de resgate por cashback, em produtos que incluem nominalmente o Apex Malls FII, fundo que detém 15,82 por cento do Shopping Vitória. Os tributos correntes em atraso somam R$ 35,2 milhões apenas na Apex.
O gatilho
A petição sustenta que o próprio saneamento da governança criou o risco imediato. A substituição abrupta da administração é, na quase totalidade dos contratos financeiros do grupo, evento que autoriza a declaração de vencimento antecipado das dívidas, pelas chamadas cláusulas de change of management. Nas palavras do documento, “o ato de saneamento da governança, paradoxalmente, é ele próprio um gatilho de aceleração de dívida”.
O texto aponta datas. Entre 12 de agosto e 30 de setembro concentram-se pedidos de resgate de aproximadamente R$ 78,2 milhões em fundos regulados. E registra sinal de possível renúncia do Banco Daycoval como administrador fiduciário de fundo relevante do grupo.
A medida não alcança os patrimônios das classes de cotas dos fundos de investimento, os patrimônios separados das emissões de certificados de recebíveis nem os patrimônios de afetação das incorporações imobiliárias, conforme delimitação expressa da própria petição.
Em um trecho que resume a natureza do risco alegado, o documento afirma que o grupo não é uma indústria cujo ativo principal seja um parque fabril: “Seu ativo principal é a confiança.”
O que diz a Apex
Em comunicado divulgado na quinta-feira (6), a Apex Partners informou que apurações preliminares conduzidas por lideranças do Partnership identificaram inconsistências financeiras na companhia e que Cinelli foi afastado da presidência como medida preventiva, para permitir a melhor apuração dos impactos. Segundo o texto, o conselho de administração afastou também Eduardo Siqueira da diretoria financeira. A empresa acrescentou que uma auditoria externa está sendo contratada e que serão adotadas medidas de responsabilização cível e criminal. A presidência passou a ser exercida interinamente por Marcelo Murad, sócio sênior da companhia.
O comunicado não informou valores, prazos nem a natureza das inconsistências, e não mencionou a medida judicial protocolada no dia seguinte.
O VIXFeed procurou novamente a Apex Partners. Não houve resposta até a publicação desta reportagem. O espaço permanece aberto.
O que diz a Rhino
Procurado, o Rhino Grupo afirmou que presta serviços de estruturação e emissão de operações de securitização para a Apex Partners e que dessa relação decorre sua posição como credor. Disse acompanhar de perto os desdobramentos dos fatos em curso e que adotará todas as medidas cabíveis para a recuperação dos valores e a proteção dos interesses dos titulares dos títulos.
O grupo acrescentou que suas demais operações seguem segregadas dessa relação, em pleno funcionamento e sem impacto sobre compromissos com clientes e parceiros, e que atua há mais de cinco anos na estruturação de operações de securitização, com autorização e fiscalização da CVM e contas auditadas anualmente por auditoria externa independente.
O que diz o Shopping Vitória
O Shopping Vitória informou que, desde junho de 2023, o Fundo de Investimento Imobiliário Apex Malls (APXM11), estruturado pela Apex Partners e administrado fiduciariamente pelo BTG Pactual, detém participação minoritária na propriedade do empreendimento. Segundo a nota, o fundo é constituído exclusivamente com recursos de investidores cotistas e não tem cotas adquiridas pela Apex Partners, responsável apenas pela gestão.
A entrada do fundo ocorreu após a Petros, fundo de pensão dos funcionários da Petrobras, colocar sua participação à venda. Com a transação, a propriedade passou a ser da Nova Cidade Shopping Centers, da Previ e do APXM11, permanecendo a operação e a gestão do empreendimento sob responsabilidade da Nova Cidade Shopping Centers.
A administração afirmou ainda que o Shopping Vitória não possui qualquer ingerência sobre o fundo e que questões relacionadas à sua estrutura e administração devem ser esclarecidas diretamente pela gestora e pelo administrador fiduciário. Reforçou que os fatos atuais não alteram sua operação, que segue comprometida com a qualidade oferecida a clientes, lojistas e parceiros ao longo de seus 33 anos de história.
O que diz a Fucape
A Fucape Business School, cujo controle acionário pertence ao fundo ABMPar, comandado pela Apex Partners, foi procurada pela reportagem e não respondeu até a publicação.
Fernando Cinelli não se manifestou publicamente. O VIXFeed mantém o espaço aberto para sua manifestação, inclusive por meio de sua defesa jurídica.

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