Atualizado em 07/08/2026 – 15:41
Nas últimas semanas, estivemos voltando para o Brasil. A viagem em si não é tão longa e a gente ainda ganha algumas horas com a troca do fuso. Voltar, porém, tem me sido prolongado. Pensei que esse movimento, que está entre o “mal cheguei” e o “cheguei chegando”, ficaria resguardado à condição de migrante morando no exterior. Enquanto estive na terra dos colonizadores, a estranha sensação de ser estrangeira me habitava. Agora, no meu ambiente familiar, nos lugares e nas pessoas que eu reconheço, a estrangeira ainda está aqui.
Não sei exatamente como se constrói essa sensação de familiaridade com relação ao entorno. Durante a viagem, houve um momento que eu comecei a associar as fisionomias das pessoas que via na rua a da de conhecidos brasileiros. Notei, então, que eu só podia estar, por algum motivo, ou criando faces semelhantes em busca de alguma imagem que eu reconhecesse como familiar ou, o mais alarmante para uma capixaba, criando um motivo para cumprimentar possíveis conhecidos.
Diante da ausência das caras comuns, o meu cérebro se encarregou de inventá-las. Talvez tenha também formalizado um estado de estrangeira que deixou de ser momentâneo e tornou-se um jeito do corpo ser. Quando estávamos longe, a minha criança dizia, todos os dias, que sentia saudade da família e que os amigos de lá nunca iriam conhecer os amigos daqui. Nosso estrangeirismo se estrutura nessa vida de corações bifurcados, na constatação óbvia e melancólica da criança sobre os afetos e os efeitos do que vivemos. Para minha surpresa, ser estrangeira não estava restrito ao deslocamento geográfico e a distância física da terra natal.
Trouxemos nossas estrangeiras junto as azeitonas e os chocolates. Passaram imperceptíveis pela aduana e seguem menos invisíveis ao redor da ilha. O corpo que migra se reinventa em outro fuso, lida com o vazio de viver em uma língua que não é a sua e, assim, pode se inscrever do zero numa língua nova. Usufrui disso, de estar completamente alheio, para trabalhar no que importa e o que importa, quando você migra, vai mudando de forma.
Por isso, voltar é lento. Passa por fusos indistintos, caminhos sinuosos e algumas novas escolhas lexicais rememorando o tempo da língua outra. A verdade é que a gente não volta. A gente chega, mas não volta para o que deixou. Os rituais, talvez, nasçam dessa vontade em definir, sacralizar, marcar o desejo de poder ser outra coisa. Findar para recomeçar. Chegamos, a criança e eu, com as nossas respectivas e indefinidas estrangeiras. Não fizemos uma cerimônia de retorno, mas mantivemos os diálogos em espanhol enquanto andamos pelas ruas da capital capixaba. No fluxo de uma longa oração, resguardamos a salvo o que vivemos, entoando ao devir todas aquelas que ainda podemos ser.

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