Atualizado em 26/06/2026 – 15:59
Essa é a segunda Copa em que torço fora de casa. Minha última experiência no exterior por um período maior foi em 2014, na Copa sediada pelo Brasil. Nós, no interior da Argentina, chegávamos em qualquer quiosco e logo faziam alguma piadinha sobre futebol. Tudo bem que não é preciso que seja Copa do Mundo pra que os argentinos impliquem com brasileiros sobre o futebol, mas o tom dos comentários não era tanto de rivalidade e funcionava mais pra nos lembrar de que a Copa tava acontecendo no Brasil.
A gente não dava muita bola, e o motivo, na verdade, era propositado. Estar longe do Brasil durante a Copa era não abastecer o nosso imaginário com a enxurrada estética que invade as decorações de todos os lugares a cada quatro anos. Estivemos longe da explosão verde amarela que se espalha pelas ruas, lojas e guarda–roupas. Não era nada fácil estar distante do jeito de corpo do torcedor brasileiro, dos cabelos ousados que fidelizam as promessas do hexa,do som das vuvuzelas entre os fogos e o ruído alto do escapamento das motos.
Além disso, o Brasil e eu dividimos a festa a cada quatro anos. Criamos, assim, alguma intimidade diferente, tanto pro bem quanto pro mal. Quando meu aniversário cai no mesmo dia do jogo, o tema Copa do Mundo é garantido. Nem sempre, porém, a seleção me presenteia com uma vitória. Então, estamos sujeitos à sensação de velório que não vem prescrita no convite, tamanha a fé na seleção. A sorte é que, em quatro anos, já esquecemos a sensação e seguimos marcando aniversário e jogo no mesmo dia na Copa seguinte.
Este ano, o aniversário e a Copa coincidiram, e coincidiu também de eu estar fora do país. Em Salamanca, a Copa chegou tímida. Alguns bares e cafés decoraram com bandeiras, e as camisas de time apareceram com mais força pelas ruas. No entanto, no último jogo da seleção espanhola, eu caminhava depressa pra assistir de casa e, nos lugares pelos quais passava, me deparei com os torcedores contidos, olhando pra TV, mas sem se mexer muito, sem se movimentar, sem sofrer. Posso ter um repertório limitado para o futebol, mas sei ler as pessoas e já convivi com espanhóis tempo suficiente para não esperar deles outra coisa. Mesmo com o futebol, que também é aqui uma paixão nacional, o nosso jeito de torcer e de viver é mais expansivo. A gente faz barulho, junta gente, arranja jeito pra todo mundo assistir junto. As escolas param as aulas para exibir o jogo, algumas mudam as férias escolares em função do calendário da Copa, e eu aqui, longe de toda essa mobilização coletiva que é ser brasileira na Copa do Mundo.
Assisti, de madrugada, ao jogo do Brasil contra a Escócia. Minha companheira de torcida dormiu logo após presenciar a mãe chorar com o hino nacional. O Brasil avançou rápido na partida, até que rolou a anulação polêmica de um gol, e eu, sozinha, sem ter com quem compartilhar a indignação ou, ao menos, me certificar de que eu poderia senti-la. Esperava a validação da anulação como injusta, comunicação que não seria efetiva por mensagem, porque é o tipo de diálogo que acontece ali, na hora do jogo.
Este momento nem sempre se constitui com a maior qualidade de informações futebolísticas, até porque ele acontece na brecha entre um lance e um gole, quando alguém alcança, já em aflição, o copo de cerveja sem desviar os olhos da TV. A resposta pode ser desatenta e desinteressada, tal qual a pergunta, mas, neste momento, é selado um pacto implícito da torcida. Entre a contestação de anulação ou de impedimento, se averíguam as condições emocionais dos envolvidos e se reforça o laço que atravessa brasileiros em diferentes condições de temperatura e pressão. Celebramos ser a torcida do Brasil. Acreditamos no hexa. Sobretudo, acreditamos que, torcendo juntos e cantando o hino aos prantos na frente da TV, em qualquer lugar do mundo, contribuiremos para a vitória da nossa seleção. A última partida alimentou a esperança do Brasil seguir mais tempo na Copa. Torço, a minha maneira e do outro lado do oceano, para que ele chegue à final, porque, se isso acontecer, consigo chegar a tempo de assistir ao jogo em figa coletiva e verde amarela do sofá da casa da minha avó.

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