Ainda sou capaz de lembrar o cheiro de fumo impregnado no tecido aveludado e o barulho estridente das máquinas caça-níqueis nos inúmeros bingos clandestinos que cobri na época em que trabalhava como repórter de TV. A memória também guarda com clareza o perfil de quem frequentava aqueles espaços insalubres: em sua maioria, pessoas acima dos 60 anos, aposentadas, atraídas pela promessa de convivência e, principalmente, pela ilusão do ganho fácil.
As operações policiais eram um retrato do constrangimento. As pessoas deixavam o local de cabeça baixa, escondendo o rosto como se tivessem cometido um grande crime, quando, na verdade, eram vítimas de um esquema desenhado para explorar a sua solidão e o seu bolso.
Agora é outro patamar
O tempo passou, a maioria dos bingos físicos desapareceu e a aposta mudou de patamar, parafraseando Bruno Henrique (e qualquer semelhança aqui não é mera coincidência). O jogo migrou dos espaços mofados com cheiro de tabaco para a palma de nossas mãos. Se antes o apostador precisava ir ao caixa eletrônico e se deslocar escondido, hoje a ilusão está a um clique, a um PIX de distância, na intimidade do lar. O que ocupava as páginas policiais agora domina as redes sociais, a programação da TV, o futebol e a rotina do país.
A aposta não apenas migrou para o digital: ela foi higienizada, gourmetizada e passou a ser vendida como entretenimento leve por pessoas com alto poder de influência, que conversam diariamente com milhões de brasileiros. A grande perversidade desse novo modelo está na mudança da narrativa. A aposta deixou de ser marginalizada e passou a ser vendida como “estilo de vida” e “investimento”. Cria-se a falsa ilusão da meritocracia do palpite e do “aposta com responsabilidade”.
A epidemia silenciosa
Por aqui, durante a Copa do Mundo de 2026, a verdadeira disputa pelos holofotes não ficou restrita às transmissões da TV aberta ou do streaming. A grande guerra foi travada pelas dezenas de casas de apostas que brigavam, segundo a segundo, não apenas pela atenção do torcedor, mas pelo seu dinheiro. O resultado? Mais de 75 milhões de pessoas fizeram ao menos uma aposta durante o torneio. Um em cada três brasileiros colocou a mão no bolso para financiar essa engrenagem durante o mundial. Foram movimentados mais de R$990 milhões de reais, quase um bilhão em 39 dias de Copa. Números alarmantes que carecem urgentemente de atenção, discussão e ação.
Redução de danos e estímulos
Como pesquisador e profissional da comunicação, enxergo que conter essa escalada exige encarar o problema por dois caminhos estruturais.
O primeiro é o banimento irrestrito da publicidade, semelhante ao case mais bem sucedido de saúde pública brasileira: o combate ao tabagismo. No final dos anos 1980, quando o cigarro era embalado pelo glamour da TV e do esporte a motor, cerca de 35% dos adultos brasileiros eram fumantes. A virada veio no ano 2000, quando uma mudança normativa cortou o cordão umbilical da propaganda de tabaco nas mídias de massa.
A matemática foi simples e eficaz: ao estancar o estímulo publicitário, reduziu o número de novos adeptos e a curva de fumantes despencou para menos de 10% da população adulta. A lei não mudou apenas os números, ela salvou vidas e transformou a relação do país com o tabaco.
No caso da propaganda de apostas, a engrenagem é idêntica. Assim como a indústria do tabaco, as casas de apostas trabalham estimulando o desejo e o prazer da recompensa imediata. A dopamina liberada no cérebro de quem foca na fumaça não difere daquela de quem aguarda o resultado da roleta do tigrinho.
O que torna tudo isso ainda mais grave é a forma agressiva e sem trégua com que o jogo foi empurrado para dentro da nossa rotina. As propagandas de apostas tem uma presença quase onipresente. Elas parecem estar em todo lugar ao mesmo tempo. É um bombardeio contínuo de estímulos, feito sob medida para manter a mente em alerta e o desejo aceso.
O reflexo dessa superexposição midiática se dá em um efeito dominó assustador. E a primeira conta a chegar é na saúde pública: dados do INSS mostram um salto de mais de 2.300% nos pedidos de afastamento do trabalho por conta da ludopatia, o vício compulsivo em jogar. 80% dessas licenças médicas atingem jovens entre 18 e 39 anos, exatamente no auge de sua capacidade produtiva. Na rede pública de saúde, os atendimentos no SUS por dependência de apostas já se multiplicaram por vinte. E esses números são só a ponta do iceberg: atrás da explosão de quadros de ansiedade, depressão e, no limite mais doloroso da dívida, de pessoas tirando a própria vida.
O vício em apostas tem impactado diretamente a economia, um impacto silencioso, é verdade, já que quem ganha com as apostas frequentemente tem limites editoriais para falar sobre elas. No entanto, a conta do desastre não dá pra esconder. Dados do setor varejista mostram que 23% dos apostadores deixaram de comprar roupas, 19% reduziram despesas no supermercado e 11% têm negligenciado a própria saúde, deixando de comprar medicamentos essenciais.
O segundo caminho exige a construção urgente de um ecossistema de prevenção, acolhimento e cuidado integral. O assunto não pode mais ser empurrado para debaixo do tapete, precisa ser debatido abertamente.
As empresas precisam criar e/ou aprimorar espaços de escuta para acolher colaboradores que estão imersos nesse sofrimento silencioso enxergando o problema como questão de saúde e suporte humano. Esse debate precisa ocupar os espaços religiosos, independentemente da crença, oferecendo acolhimento em vez de condenação moral. Precisa estar no dia a dia de escolas e universidades, preparando jovens e famílias para enxergarem as armadilhas por trás da tela.
E, acima de tudo, o poder público precisa preparar pessoas e estruturar espaços para receber quem perdeu o chão. Um bom exemplo vem do Governo do Estado do Espírito Santo que, desde o começo de 2026, tem oferecido, pelo Programa Rede Abraço, atendimento multiprofissional, gratuito e humanizado focado na dependência em apostas virtuais e na ludopatia.
Se na virada do milênio o Brasil teve a coragem de banir o cigarro da TV para proteger a saúde de uma geração, precisa ter hoje a mesma firmeza para estancar a farra das propagandas de apostas. O futuro das famílias não pode continuar servindo de combustível para a tradicional ilusão do ganho fácil.

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