A petição apresentada pelo próprio grupo mostra que o endividamento líquido saiu de R$ 413 milhões em janeiro de 2025 para R$ 975 milhões em junho de 2026. No mesmo período, a companhia adquiriu quatro assessorias em três estados e assumiu o controle de uma escola de negócios.
Entre janeiro de 2025 e junho de 2026, o Grupo Apex Partners viveu seu período de expansão mais intenso. Comprou a Stark Investment Banking, a Redoma Capital em São Paulo, a Propósito Capital no Rio Grande do Sul e a Potenza Investimentos, também paulista. Assumiu, por meio do fundo ABMPar, o controle acionário da Fucape Business School.
Nos mesmos dezoito meses, sua dívida líquida consolidada saiu de R$ 413 milhões para R$ 975 milhões.
Os dois movimentos estão descritos no mesmo documento: a petição que os advogados do grupo apresentaram à Vara de Recuperação Judicial e Falência de Vitória em 6 de agosto.
Para onde foi a dívida nova
O documento vai além de registrar o crescimento do endividamento. Ele detalha o destino dos recursos.
Segundo a petição, em 2025 o grupo contraiu R$ 262 milhões de dívida nova. Desse total, 72 por cento, ou R$ 187 milhões, foi destinado a aportes em fundos, veículos e operações de fusões e aquisições que, nas palavras do documento, não retornaram caixa no período.
No primeiro semestre de 2026, o padrão muda de natureza. De R$ 300 milhões de dívida nova, 58 por cento não correspondeu à formação de qualquer ativo. São R$ 80 milhões de déficit operacional, ou seja, a operação consumindo mais do que gerava, e R$ 95 milhões de carrego financeiro e fiscal, o custo de manter a própria dívida e as obrigações tributárias.
São dois problemas diferentes. Em 2025, dívida financiando investimento que ainda não retornara. Em 2026, dívida financiando o próprio funcionamento.
O que isso significa, e o que não significa
Aporte que não retorna caixa no período não é, por si, mau negócio. Investimentos em participações societárias, private equity e venture capital têm maturação longa por natureza, e é comum que levem anos até gerar retorno. Uma empresa comprada em 2025 dificilmente devolveria caixa em 2025.
O que o documento estabelece é outra coisa: que a expansão foi financiada por dívida e que, no momento em que o grupo precisou de liquidez, os ativos adquiridos não estavam em condição de gerá-la.
Há um dado da petição que ilustra o ponto. Da carteira de ativos realizáveis do grupo, com posição nominal de R$ 261,5 milhões em 30 de junho de 2026, apenas R$ 190,1 milhões seriam recuperáveis em caso de desinvestimento. A perda estimada é de R$ 71,4 milhões, ou 27,3 por cento. O documento registra ainda write-offs integrais de R$ 38,1 milhões em 65 posições de mútuos e deságio de liquidez estimado entre 30 e 60 por cento sobre os ativos remanescentes.
A tentativa de capitalização
Em 28 de abril deste ano, uma assembleia geral aprovou aumento de capital de R$ 176,5 milhões, com emissão de mais de 2,5 milhões de novas ações ordinárias e direito de preferência aos acionistas.
Era a via para reduzir a dependência de dívida. A petição registra o desfecho em uma linha: a operação “restou frustrada pela deterioração do cenário”.
Na mesma assembleia, o estatuto social foi integralmente reformulado, com criação de comitê de auditoria, instituição de conselho fiscal de funcionamento não permanente e estabelecimento de alçadas deliberativas escalonadas por valor.
Como a dívida foi contraída
A petição detalha a composição do passivo apurado em caráter preliminar, de aproximadamente R$ 985,6 milhões na data-base de 30 de junho de 2026.
A maior parcela, R$ 452,1 milhões, corresponde a debêntures emitidas por intermédio da Rhino Securitizadora, com remuneração de 110% a 130% do CDI ou IPCA acrescido de 1,1% a 1,3% ao mês.
Vêm em seguida R$ 309,8 milhões em obrigações de cashback, distribuídas em 1.600 posições de clientes, e R$ 201,7 milhões em endividamento bancário com aval. Há ainda R$ 35,2 milhões em tributos correntes em atraso apenas na Apex.
O que vem agora
O grupo obteve em 7 de agosto proteção judicial que suspende execuções por 60 dias e tem prazo improrrogável de 30 dias corridos para apresentar o pedido de recuperação judicial.
O juiz nomeou a Laspro Consultores para elaborar, em 20 dias, laudo de constatação prévia sobre as reais condições de funcionamento e organização das 172 sociedades requerentes. É esse laudo que dirá se os números apresentados se confirmam.
A própria petição faz a ressalva de que os elementos apresentados vêm de informações de caráter autodeclaratório, sem auditoria externa concluída, e são reportados como elementos que justificam a diligência, e não como conclusão sobre fraude, simulação ou irregularidade.
Outro lado
O VIXFeed procurou a Apex Partners com questionamentos sobre a estratégia de aquisições, o financiamento por dívida e a frustração do aumento de capital. Não houve resposta até a publicação desta reportagem. O espaço permanece aberto.
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