Atualizado em 08/05/2026 – 16:25
A cidade de Salamanca é muito turística e igualmente tradicional. Aos sábados pela manhã, os jovens se distribuem com fantasias de grupo, fazendo despedidas de solteiro pela parte histórica da cidade. Entre os turistas, os festeiros se distinguem pelo traje igual do grupo, que pode ser uma camisa com uma foto constrangedora do noivo ou apenas um “esquadrão da noiva” na parte das costas. Minha filha e eu, inclusive, vimos inflarem uma fantasia de policial em uma noiva em plena Plaza Mayor e, ao seu redor, além dos viajantes, as amigas presidiárias riam da cena.
Neste dia foi curioso porque observávamos esse movimento social, que é reunir os amigos a partir do notório constrangimento da noiva, para fazer com que ela se despeça da vida de solteira. Tentávamos rastrear as possíveis noivas. Algumas usavam orelhinhas de coelho, outras o véu na cabeça, mas era o grupo uniformizado que as entregava completamente. Paramos para descansar um pouco dessa tarefa árdua, que, num espaço de tempo de 30 metros, abarcava já sete noivas se despedindo.
No parque, sentada num banco, via um grupo de pessoas passar na minha frente, todos com roupas comuns. No entanto, uma delas me abordou e perguntou, em espanhol, se eu podia responder a uma pergunta porque ela estava participando de uma prova. Quando reparei melhor, era uma noiva vestida Sherlock Holmes.
Diante de tamanha produção, eu disse que sim, poderia responder. Estava um pouco nervosa e sem saber se, a partir daquele momento, a chacota deixava de ser a noiva e passaria a ser eu. A Sherlock-noiva, falou que investigava sobre o amor e que a prova consistia em pedir que eu contasse a história de um bom amor.
Nessa hora, eu respondi em português que, para essa pergunta, eu não sabia falar em espanhol. Todos riram e, de repente, foi como se eu estivesse de novo na sala de aula, todo mundo me olhando fixamente enquanto eu falava alguma gracinha. Depois, comecei a responder à pergunta em espanhol. Disse que gosto de falar sobre o amor, que sou escritora e que as relações humanas sempre me interessaram. Embora nem tudo seja ficção, a ficção é um modo de levar a realidade, principalmente quando a gente fala de afeto.
Falei que, no meu último livro, abordo um pouco das relações amorosas pelas quais passei e outras tantas que vivi de ouvido. Nenhuma delas se equipara à relação que vivo hoje, eu disse. Se tivesse que contar uma boa história de amor, continuei, contaria a história de amor que estou vivendo. Falei que, para vivê-la, precisei rever aquilo que entendia por amor. Entendi, com o tempo, que os bons amores vêm assim, não cabem na caixa que moldamos e que brilhantemente estrutura a visão de amor que desejamos ter. Pelo contrário, eles trazem consigo uma série de vulnerabilidades que só aparecem e se mostram como tais quando expostas àqueles que têm disponibilidade para ver.
Finalizei o pequeno simpósio dizendo que, lógico, quando a gente se apaixona, todo amor é bom e que essa fantasia também serve aos amores ruins, e como serve. Mas disse que essa história, em especial, era bonita porque escolhi estar nela. Ninguém me empurrou. Ela foi acontecendo, cada dia com mais espaço no meu coração. Tornou-se esse relicário, que não é intocável, porque, hora ou outra, revisitamos e remodelamos as estruturas. Minha história de um bom amor seria, então, essa escultura invisível moldada a quatro mãos.
Ainda bem que “relicário” significa o mesmo em espanhol, porque, na hora, lancei a palavra no contexto e fiquei pensando se era um falso cognato. Depois entendi que o mais difícil não era alcançar o léxico, mas a metáfora.
Quando terminei, eles aplaudiram. Eu ria sem graça e a noiva agradeceu. Não sei se a minha resposta estava à altura da cultura casamenteira tradicional de Salamanca, mas falei do meu lugar de conforto: tanto o banco da praça enquanto a criança brinca, como a escrita que me permite continuar contando histórias de amor.

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