Atualizado em 17/05/2026 – 11:18
Na pandemia, o Espírito Santo não enfrentou somente o vírus. Enfrentou uma outra doença: a agenda da extrema-direita, caracterizada por uma tríade que quis transformar a ciência e as instituições em inimigas, as vacinas em motivo de suspeita e o luto de cada capixaba em disputa política. Este é um texto longo e denso, um convite a sistematizar uma corrente de pensamento e de união que se traduziu em vacina e tratamento à doença que se sobrepôs ao vírus.
O Espírito Santo já havia feito um pacto para se reconstruir. Depois da crise política e institucional da virada dos anos 1990 para os anos 2000, forças diferentes reconheceram um objetivo comum: devolver autoridade ao Estado, reorganizar a vida pública e impedir que o Espírito Santo voltasse a ser capturado pela desordem, pela violência política e pela degradação institucional.
A pandemia exigiu um segundo pacto mais veloz, mais doloroso e mais exposto. Não se tratava apenas de administrar hospitais ou publicar decretos. Era preciso proteger vidas em um país atravessado por descoordenação federal, guerra de narrativas, negação da ciência e ataques às vacinas. Esse pacto teve dois tempos: primeiro, resistir ao vírus em sua dimensão epidemiológica e sanitária; depois, resistir à tentativa de reescrever a pandemia como farsa.
A crítica à descoordenação nacional não pertence apenas ao campo da disputa política. No Brasil, instalou-se uma espécie de “federalismo de confrontação”. Em vez de uma indução nacional coordenada, estados e municípios foram muitas vezes empurrados a decidir sob conflito, ruído e insegurança. O Tribunal de Contas da União registrou que o governo federal não vinha exercendo “a contento” suas atribuições de planejador central para elaborar cenários, identificar riscos e estabelecer ações necessárias ao enfrentamento da pandemia. Também apontou ausência de diagnósticos gerais sobre a situação sanitária dos estados, falta de diretrizes para a segunda onda e inconsistências entre objetivos, metas, indicadores e ações.
Foi nesse ambiente que o Espírito Santo precisou construir coordenação própria. Ainda em março de 2020, o governo estadual criou uma Sala de Situação, anunciou a abertura de leitos e decretou emergência em saúde pública. A governança reuniu áreas estratégicas do governo para produzir informação, orientar decisões e organizar a resposta. Para além da formalidade, era a opção de governar a crise.
Renato Casagrande deu a esse processo um teto institucional alto. Sustentou decisões difíceis, preservou a autoridade da saúde e compreendeu que, em uma emergência sanitária, a técnica só vira política pública quando encontra liderança capaz de assumir custos. Sem esse teto, pareceres viram papéis; com sustentação política, evidências orientam decisões de Estado e salvam vidas.
Nenhuma liderança individual seria capaz de enfrentar sozinha uma crise dessa escala. Falo desse processo como alguém que esteve no centro da formulação e da execução, mas não como dono da resposta. Participei ao lado de gestores, trabalhadores do SUS, municípios, universidades, Instituto Jones dos Santos Neves, controle social, rede assistencial, imprensa, movimentos sociais, setor produtivo, entidades religiosas e instituições como a OAB, o TJ-ES, o MPE e o TCE-ES. A pandemia revelou a importância dos quadros públicos: não como salvadores, mas como pessoas capazes de traduzir ciência em decisão, urgência em método e medo social em coordenação institucional.
A Matriz de Risco foi o símbolo mais visível dessa engenharia. Instituída em abril de 2020, orientou medidas qualificadas contra a Covid-19 a partir de critérios epidemiológicos, capacidade assistencial, atualização periódica, transparência pública e governo por inteligência de dados. Construída com participação da Sesa, Corpo de Bombeiros, Defesa Civil, IJSN e Ufes, a matriz não era uma tabela fria. Era uma forma de transformar incerteza epidemiológica em decisão pública comparável, auditável e comunicável.
Nada mais emergencial do que decisões estruturantes tomadas e executadas em alta velocidade. Medidas não farmacológicas, transparência dos dados, inquéritos soroepidemiológicos, pesquisas com vacinas, fortalecimento do SUS, articulação com municípios, escuta do controle social, expansão hospitalar, ampliação do SAMU para todos os municípios, expansão de mais de 500 equipes de atenção primária e equipes de saúde bucal, modernização da vigilância e governo por inteligência de dados não foram peças soltas. Sem hospitais de campanha, optamos por uma resposta de Estado.
Essa constelação de projetos mostra que a agenda estruturante do SUS não parou durante a pandemia. Ela acelerou. Em plena emergência sanitária, estruturamos o Instituto Capixaba de Ensino, Pesquisa e Inovação em Saúde, o ICEPi, e a Fundação Estadual de Inovação em Saúde, a iNOVA Capixaba. A carteira estratégica decidida no primeiro ano de governo foi tensionada pela crise. A pandemia exigiu velocidade, e velocidade, quando há método, pode produzir estrutura.
Esse pacto sanitário foi técnico, mas não tecnocrático e nem ideológico. A técnica não serviu como esconderijo burocrático; serviu como ferramenta da melhor decisão política possível. Técnica sem diálogo produz obediência frágil. Política sem evidência produz improviso, e improvisos custam vidas em uma pandemia. O Espírito Santo buscou outra coisa: pactuar com municípios, dialogar com setores sociais e econômicos, dar previsibilidade quando possível e corrigir rotas quando necessário.
Pode-se perguntar: houve insuficiências, tensões e limites? Sim. Nenhum pacto construído sob morte, medo e incerteza seria puro. Mas ele teve uma direção: proteger vidas sem abandonar a responsabilidade institucional. Não foi um pacto sem tensões, mas passando por cima de divergências ideológicas, novamente atores sociais que haviam participado do pacto de 2002 voltaram a se sentar à mesma mesa.
Também houve silêncios. Alguns atores que haviam participado da reconstrução do Espírito Santo preferiram observar a crise a distância. Não precisavam concordar com cada decisão do governo, nem seria razoável esperar unanimidade em uma pandemia. Mas houve quem calculasse o custo político da tragédia antes de defender publicamente a ciência, o SUS e a vacinação. Em uma crise sanitária, o silêncio também comunica.
A memória pública da pandemia segue em disputa, e isso tem base documental. A CPI da Pandemia relacionou indiciamentos ao negacionismo sobre o vírus e as vacinas, às suspeitas na compra de imunizantes e ao uso de tratamentos sem respaldo científico. A pandemia não terminou apenas como emergência sanitária. Permaneceu como disputa sobre verdade, responsabilidade e memória.
No Espírito Santo, essa disputa teve uma cena-síntese no último debate de 2022. O candidato da extrema direita, apoiado por Jair Bolsonaro, afirmou que a pandemia “foi uma farsa”, defendeu o chamado tratamento precoce e colocou em dúvida o número de capixabas mortos pela doença. Casagrande reagiu em defesa da ciência, das vacinas e da memória das famílias atingidas. Ali se expressou uma lucidez política que seria confirmada nas urnas. Aquele momento não foi apenas um embate eleitoral. Foi a tentativa de converter luto em desconfiança, morte em suspeita e política pública em conspiração.
Resultados eleitorais possuem muitos determinantes, mas seria impossível compreender 2022 sem considerar o impacto político, moral e social da pandemia. Naquele confronto final, estavam diante dos capixabas duas formas de tratar a maior crise sanitária da nossa geração. Casagrande venceu. A vitória não apagou a dor das famílias nem encerrou as sequelas da Covid-19, mas impediu que o extremismo se impusesse sobre a memória da resistência e da dor das famílias capixabas. Impedimos que a memória da crise fosse entregue, naquele momento, aos que tentaram chamá-la de farsa.
O segundo pacto capixaba foi material e espiritual. Material porque abriu leitos, organizou riscos, integrou redes, distribuiu vacinas e sustentou o SUS em condições extremas. Também lançou planos econômicos, como o Plano Espírito Santo: Convivência Consciente, e deu respostas na assistência social e na educação. Espiritual porque preservou confiança pública quando a mentira tentava corroer a sociedade. Em uma pandemia, proteger a vida exige respiradores, equipes, hospitais, vacinas e dados. Mas exige também uma ideia simples e profunda: a vida do outro importa.
Essa memória importa porque os atores que negaram a pandemia, chamaram a crise sanitária de farsa, questionaram vacinas, estimularam suspeitas sobre hospitais e criaram fraturas no pacto social não desapareceram. Durante a pandemia, a Procuradoria-Geral do Espírito Santo chegou a enviar notícia-crime ao Ministério Público contra parlamentares que foram ao Hospital Estadual Dório Silva, referência no tratamento da Covid-19, em visita não agendada. A PGE os acusou de “invasão das instalações” e de colocar pacientes e servidores em risco; os parlamentares negaram irregularidades.
Em 2026, parte desse mesmo campo político se reorganiza. Sinais públicos da cena estadual indicam a busca de alianças entre forças da direita e da extrema direita para disputar o comando do Estado. Não se trata de memória remota. Trata-se de avaliar que métodos, forças e imaginários podem voltar a disputar o Espírito Santo.
O risco não é apenas eleitoral. É institucional, econômico e social. Um campo político que captura a agenda do Estado para uma guerra ideológica permanente pode comprometer a estabilidade construída nos últimos 24 anos. Pode corroer a confiança entre governo, municípios, setor produtivo, universidades, movimentos sociais, imprensa, igrejas e sociedade civil. Pode transformar divergência em sabotagem, política pública em suspeita e planejamento em inimigo. Pode, sobretudo, impedir que o Espírito Santo construa o terceiro grande pacto de que precisará para atravessar a próxima década.
Grandes pactos exigem tolerância. Saltos de qualidade em desenvolvimento, política pública e civilização exigem diálogo com atores distintos, diversos e, às vezes, antagônicos. Não se constrói futuro apenas com afinidade ideológica. Constrói-se futuro quando a democracia permite que diferenças encontrem convergências suficientes para gerar oportunidades, dignidade e direitos.
O Espírito Santo saiu da pandemia com perdas que jamais podem ser relativizadas. Cada morte por Covid-19 carrega uma família, uma ausência, uma história interrompida. Quando alguém chama a pandemia de farsa, não ataca apenas um governo ou um campo político. Ataca a memória dos mortos, o trabalho dos profissionais de saúde e a inteligência coletiva de uma sociedade que precisou atravessar o medo.
O primeiro pacto reconstruiu o Estado. O segundo mostrou para que serve um Estado reconstruído: proteger vidas quando a desorientação ameaça a sociedade. Em 2026, essa memória voltará a ser testada e o futuro estará em disputa. A pergunta não será apenas quem vencerá uma eleição, mas se o Espírito Santo continuará capaz de construir pactos democráticos próprios ou se aceitará ser arrastado para projetos que negam ciência, enfraquecem instituições e capturam o Estado como instrumento de guerra política. A direita que opina, que dialoga, que é educada, que não flerta com o fascismo e respeita a democracia também é atacada quando não se ajoelha à cartilha do extremismo. A ofensiva não é apenas contra o campo popular. É contra o convívio democrático.
A história do Espírito Santo ensina que as vitórias majoritárias para o governo do Estado costumam nascer no campo da estabilidade, do diálogo e das maiorias heterogêneas. No Espírito Santo, a estratégia da grandeza política tem sido mais forte do que a política da fratura e do medo.
O segundo pacto não foi um documento assinado em mesa. Foi uma prática concreta: decidir com ciência, coordenar com instituições, proteger vidas, enfrentar a mentira e preservar a memória pública da pandemia. Foi assim que o Espírito Santo atravessou a crise. A estabilidade que conquistamos fica ameaçada quando se tenta erguer uma ponte para o passado justamente no momento em que o Espírito Santo pode construir um terceiro pacto: ponto de partida para garantir que haja vida no futuro, com sustentabilidade, prosperidade, direitos e justiça social.

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