Atualizado em 29/05/2026 – 15:29
Conheci três cidades do território que denominamos Holanda, mas cuja divisão interna, assim como o som de chiado de rádio que a língua deles faz na garganta, só eles entendem. Nosso primeiro destino foi Haia, que em holandês é Den Haag, em inglês, The Hague. Curioso como a cidade dita em cada idioma parece outra. Confesso que sabia sobre a sua relevância no meio político em termos superficiais. Algo sobre o direito, os apostilamentos de traduções, mas nada além disso. Chegamos com a última leva de frio da primavera. As tulipas já haviam florido e o calor era anunciado aos quatro ventos para o próximo fim de semana. O clima ainda gelado deu à nossa visita o contexto esperado para aquela paisagem.
Em Haia, as casas, além de retilíneas, eram levemente inclinadas, tinham grandes janelas sempre bem limpas e abertas. A gente confundia o que era vitrine de loja e o que era moradia enquanto disputava a calçada com as bicicletas. Observar de fora o que acontecia dentro das casas era, de certo modo, um exercício de curiosidade criadora, mas também um modo de acessar o cotidiano das pessoas sob a luz que elas mesmas escolheram para ler ou fazer o chá. Me senti seduzida pela vida alheia supostamente exposta pelas janelas que iluminam naturalmente os ambientes da casa.
Antes que eu pudesse começar a construir roteiros possíveis para esses personagens, fomos fazer um walking tour pela cidade. Desses passeios normalmente feitos por guias de turismo que fazem o percurso a pé enquanto explicam a história do lugar a um grupo de pessoas que os pagam mediante gorjeta. Meu interesse anterior, em inventar a partir das imagens da vida íntima cotidiana, perdeu um pouco de sentido diante da história que nos foi contada. A vida pública de Haia era igualmente intrigante. No Brasil, principalmente no Sudeste, a gente aprende sobre a invasão holandesa em Pernambuco, mas não me lembro de crescer com a sensação de magnitude em relação ao poder de colonização desse país. Eles foram do Oriente ao Ocidente, de Nova Iorque à Indonésia, desenvolvendo uma rede corporativa e capitalista que defendia interesses próprios às custas de mão de obra escravizada.
Antes da consolidação do império holandês, os Países Baixos eram território da Espanha, junto à Bélgica e a Luxemburgo. A independência aconteceu depois de uma longa guerra. De um lado, a Península Ibérica com o cristianismo inquisidor e atividades econômicas regidas por altos impostos. Do outro, os holandeses resistindo às adversidades geográficas, considerando que boa parte do país está abaixo do nível do mar, e à imposição da coroa espanhola. Se, em um primeiro momento, os protestantes sofreram ataques durante o domínio espanhol, foi após a independência que o catolicismo passou a ser perseguido. Pelo caminho, o guia mostrava casas que eram fachadas para igrejas católicas escondidas. Nos tempos atuais, as igrejas protestantes mais exuberantes por fora se tornaram modestos espaços que recebem eventos diversos.
O mais próximo de uma igreja católica em que entrei foi na graciosa cidade de Utrecht. Um bar que funciona dentro de uma antiga igreja cristã, mantendo o órgão, o altar, as imagens e a temática, com velas brancas adornando as mesas. Talvez eu não tenha conseguido, nem ao menos desejado, manter qualquer neutralidade diante de tomar uma cerveja dentro da igreja com Maria me vendo do altar. De botecos com imagens de santo, o Brasil está cheio. A questão não está nisso, mas em como esse território fundado à base de opressões religiosas por todos os cantos não só acomoda um bar onde antes abrigava uma igreja, como ainda aparenta, do lado de fora, uma estrutura que parece guardar algum sigilo.
Do lado de fora, algumas casas mantêm a perceptível linearidade entre as construções, a disposição das quadras, os quarteirões e os jardins escondidos. Mesmo aquelas com janelas que expõem a mesa do jantar a quem passa na rua, essas daí me arrancaram profunda desconfiança. Há, me parece, uma aparência ordenada velando um interior com jardim no fundo. Talvez isso explique o porquê de, aparentemente, Haia preservar estruturas e organizações que pretendem justiça, e ironicamente, alojar também o palácio real. Muito se vê sobre a paz na cidade. Monumentos, esculturas, frases escritas pelos muros, bandeiras, nomes de tratados e acordos. Espero que esse não seja mero efeito cuja natureza imita a das casas miúdas que escondem longos túneis subterrâneos ou recebem alunos da catequese escondidos aos sábados pela manhã. Aliás, o que a carcaça pacífica de Haia estaria ocultando?

Os principais eventos do ES toda semana no seu e-mail, totalmente grátis.





