Atualizado em 12/06/2026 – 16:37
Outro dia, recebi uma lembrança da nuvem de um celular antigo por e-mail. Era uma foto de um poema que escrevi com dez anos. Nessa época, usava temas gerais como o amor, a amizade e a paz para compor meus versos ainda prematuros e cheios de erros de português. Esse poema, em especial, falava sobre o amor. Dizia que “coração sem amor não existe, só existe coração triste”. Não foi um verso grandioso na época, continua sendo um verso medíocre agora, mas ele me revelou essa preocupação precoce em não só tentar entender o amor, mas defini-lo já naquela idade e a partir da exclusão.
Aos dez, eu não fazia ideia de que os corações sem amor “sentem rancor por si próprios e não têm amor ao próximo”. Nem preciso ir muito longe para provar meu argumento incipiente. Na vida adulta, até que eu parasse de sentir pena de mim mesma, eu não tive a oportunidade de viver um grande amor. Encontrei, sim, várias pessoas que, como eu, estavam afundadas em sua própria angústia, saíam para tomar um ar às sextas à noite, que era quando nos encontrávamos.
A gente respirava pouco nesse labirinto. Ainda que controlando bem o fio que nos levaria ao seu fim, escapar do Minotauro era inevitável: ele era um espelho enorme de nós mesmos. Não acho que esteja imune a esse narcisismo, mas as coisas começaram a mudar quando “comecei a procurar-me, ao eu por detrás de mim, à tona dos espelhos”, como diria Guimarães Rosa. Desviar do espelho parecia um movimento de completo descontrole. Se abrisse mão disso, as mãos que seguravam o espelho teriam que se deparar com a imprevisibilidade do outro, sua espontaneidade, seu desejo.
Em algum momento desse trajeto, encontrei mãos que me acolheram com espelho e tudo. Elas me esperavam na porta do teatro, no estacionamento do trabalho e depois da aula para um café. Essas mãos esperaram que eu fosse, aos poucos, soltando o espelho, mas sem danificá-lo, apenas movendo-o de lugar para que coubesse, então, outra coisa. Nesse percurso, encontrei suas mãos, sua forma, seu desejo. Elas começaram a me conduzir por lugares em que nunca havia estado. Encontravam-me na hora marcada, e marcavam depois de encontrar de novo. Se eu ia ao banheiro durante um show, quando voltava, elas me esperavam para abraçar. Quando tentei um sonho antigo, um sonho longe, quase impossível, essas mãos estavam lá. Primeiro vibrando, ora ou outra acalentando, e depois se despedindo, ao me ver partir para realizá-lo.
Hoje, ainda longe, a certeza das mãos que me esperam no cais deixa a distância menos angustiante. As minhas palmas estão mais ressacadas, em função do clima e de uma solidão inerente aos corpos que migram. No entanto, para manter as mãos saudáveis, continuo o exercício cuidadoso que comecei ainda na infância: escrever sobre os afetos que rondam este mundo, sem esquecer que a vida acontece mesmo quando os dedos escapam à página e encontram outras mãos.

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