Atualizado em 10/04/2026 – 16:57
Chegamos à cidade do Porto pela manhã. Pegamos um ônibus no meio da noite e vivemos o outro dia naquele eterno transe entre o ontem e o hoje. Mas vivemos bem, fomos recepcionadas por um belo nascer do sol que nos acompanhou ao longo da viagem. E não é só ele que acorda mais tarde aqui. As coisas todas abrem só depois das dez. Esperamos a cidade acordar em algum parquinho, onde a criança encontrou um balanço confortável para sentar. Ela saiu do ônibus disposta a escrever uma reclamação para a empresa, dizendo que era inadmissível que aquelas poltronas fossem mais desconfortáveis que poltronas de avião, injuriada, ela gesticulava com as mãos e exagerava no tom. Num assento entre um balanço e uma poltrona, ela ficou.
Esperamos abrir os jardins do Palácio de Cristal. Não sabíamos, porém, da quantidade de pássaros que o lugar abrigava. Eram galos enormes, cacarejavam quase tão bonito quanto o topete deslumbrante que levavam na cabeça. Galinhas, pavões, pombos, muitos pombos, gansos, patos, todos eles transitando livremente ou fazendo motim para roubar comida mais rápido. Escolhemos ficar longe de quem alimentava os pássaros. Num banco afastado, começamos a jogar baralho. Quando nos viramos, vimos se aproximando uma pavoa com poucas penas no rabo, num andar desengonçado que fazia os olhos e o bico chegarem antes das pernas. Mantivemos o jogo, até que a pavoa começou a se aproximar com mais velocidade, o que a deixou mais desalinhada. Junto a ela, duas gaivotas agiam como suas seguranças, mas dispostas a mudar de lado, bastasse que o lanche que eu levava na mochila estivesse à mostra. Vindo mais de longe e meio perdido, um ganso andava torto e tentava averiguar a situação.
Nesse momento, todas as histórias da família com perseguições de ganso que atravessaram gerações se uniram ao meu acervo pouco vasto sobre pássaros, que só me fazia lembrar de uma ave que não reagia bem a uma virada de costas abrupta, acho agora que é o avestruz, mas na hora eu só pensava em recolher tudo do banco com calma e com o corpo meio de ladinho para não parecer falta de decoro.
A biblioteca abrigou a nossa fobia dos pássaros. Salientamos, porém, que os animais estavam corretíssimos em mostrar as regras do território deles para a gente assim, sem titubear. Depois desse dia, a gente percebeu como as aves dominavam o cenário da cidade. Nas margens do Douro, acompanhamos uma gaivota fazer um barulho de escárnio, zombando do rapaz que parou de compartilhar com ela o sanduíche. O som que ela fazia era de uma gargalhada constrangedora, alta, que fazia todos que estavam ali olharem para o rapaz. Ele foi obrigado publicamente a ceder mais um pedaço de comida.
A viagem a Portugal foi marcada pelo reencontro com o mar, com o calor e com a nossa língua materna. Embora letradas pelo português brasileiro, o de Portugal acalentou bem essas duas imigrantes tropicais que estão se adaptando à cultura espanhola há pouco mais de dois meses. No final da viagem, a criança apontava para a panturrilha e dizia que não conseguia mais andar. Adivinhem, conseguiu dar mais dez mil passos porque o celular contou. Com a batata da perna torneada e um céu da boca novo, depois de ter sido queimado por um pastel de nata extremamente quente, que valeu cada pedaço de pele que arrancou, nós voltamos à rotina em Salamanca. O frio ainda permanece, mas aos poucos as ruas estão começando a florir. As aves que aqui gorjeiam nunca vão gorjear como lá, mas, caso elas planejem por aqui algum motim, estaremos preparadas para nos refugiar na biblioteca mais próxima.

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