Atualizado em 09/01/2026 – 17:33
Desde 1985, com o fim da ditadura militar e o início da Nova República, o Brasil voltou a pisar um chão comum: a democracia. A eleição de Tancredo Neves, a posse de José Sarney em 15 de março de 1985 e, depois, a Constituição de 1988 consolidaram um pacto básico: quem ganha governa; quem perde respeita o resultado, espera quatro anos e disputa de novo.
Tal pacto não eliminou conflitos, mas estimulou a divergência propositiva dentro das regras. Foi nesse ambiente que o Brasil enfrentou a hiperinflação, mudou a vida de milhares de brasileiros com programas sociais e organizou alternância de poder sem ruptura institucional.
No meio do caminho, porém, vieram dois impeachments, um por fato, outro por fake. E, com eles, o aviso perigoso de que nem sempre a regra do jogo é tratada como regra.
Vocês se lembram. A chegada da extrema direita ao Palácio do Planalto, em 2018, foi antecedida pelo impeachment da presidenta Dilma, em 2016. Ali veio a primeira grande fratura. Para milhões de brasileiros, foi menos um julgamento jurídico e mais um impedimento político.
A instalação do “tudo pode”, o precedente de que a democracia pode ser reescrita conforme a conveniência do momento.
Dois mil e dezoito não foi apenas a vitória de um campo ideológico. Foi a ascensão de um projeto que relativiza a democracia, normaliza o autoritarismo e flerta com saídas golpistas sem qualquer pudor. Mas foram eleitos. E a resposta do campo democrático veio de onde ela deveria vir: dentro das regras, com resistência nas redes, nas ruas e no Parlamento; e com uma frente ampla para disputar a eleição de 2022. Não para dar golpe.
O 8 de janeiro de 2023 é o símbolo mais explícito da ruptura. Extremistas invadiram e depredaram o Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal e o Palácio do Planalto para tentar reverter, à força, o resultado da eleição presidencial.
PL perdeu o rumo
O Partido Liberal, inclusive, já foi parte de alianças amplas na democracia brasileira. Em 2002 e 2006, ajudou a eleger Lula ao indicar José Alencar como vice, uma ponte entre trabalhadores e setores empresariais.
Ao se tornar o principal abrigo da extrema direita, todavia, o PL passou a ostentar lideranças que atacam o sistema eleitoral, deslegitimam o Supremo e alimentam uma agenda de confronto permanente. Em vez de disputar políticas públicas, preferem corroer a confiança nas regras, nas instituições e na própria política.
O mito da polarização
O que há hoje no Brasil é a ameaça do extremismo. Chamar esse cenário de “polarização” é confortável para quem quer colocar golpistas e democratas no mesmo plano moral – como se fosse apenas uma briga entre “dois lados radicais” igualmente responsáveis.
“Polarização” sugere dois extremos equivalentes. Mas o que está em jogo é uma extrema direita disposta a romper regras e um campo democrático plural, que vai da esquerda a setores do centro, da direita e de conservadores. Todos unidos não por um programa único, mas sim por um compromisso básico com a Constituição.
Tratar tudo como uma simples “guerra de torcidas” absolve os golpistas e enfraquece a responsabilidade de quem precisa escolher um lado claro. E democracia exige escolha. Ou se está com o Estado Democrático de Direito, ou se tolera quem trabalha para destruí‑lo.
Uma democracia madura, aliás, exige um Congresso democrático, representativo, diverso, tolerante e firmemente comprometido com a Constituição. Não um Parlamento refém do extremismo. O Brasil precisa de um mundo político capaz de trabalhar pela população brasileira, em vez de produzir anistias disfarçadas, como o projeto da dosimetria vetado pelo presidente Lula.
É hora de valorizar com clareza o chão comum da democracia. O mito da polarização só interessa a quem lucra com a confusão. Para quem quer um Brasil justo, livre e democrático, a tarefa é outra: reconstruir pontes, fortalecer o Congresso, isolar a extrema direita e lembrar, todos os dias, que a democracia não se sustenta sozinha. Ela precisa de defensores à altura do que o país já foi capaz de conquistar.

Receba, semanalmente e sem custos, os destaques mais importantes do ES diretamente no seu e-mail.





