“Se eu não morrer, eu vou escrever.” A ideia surgiu ainda na infância de Aline Dias, quando a escritora capixaba começou a pensar sobre a passagem do tempo e sobre aquilo que poderia permanecer depois dela. Terceira convidada do VIXFeed Entrevista, série que reúne conversas com personalidades capixabas sobre suas trajetórias e trabalhos, Aline falou sobre como, décadas depois, a escrita se tornou uma das principais formas encontradas por ela para elaborar a vida, produzir beleza e transformar experiências em histórias.
Escritora, poeta, cronista, dramaturga e jornalista, Aline já publicou oito livros, entre eles “Além das Pernas”, “Bagunça” e “O Roubo do Sol”. A relação com as palavras começou cedo, em Cachoeiro de Itapemirim e Iúna, onde cresceu cercada por histórias, livros e estímulo da família.
“Eu passo a vida toda, muito tempo pensando em palavras, em sentidos, em como usar, em como significar. E aí acaba que, como a minha cabeça tem muita palavra, eu preciso escoar de várias maneiras diferentes”, conta.
Para Aline, não há necessariamente uma separação rígida entre as diferentes áreas em que atua. A palavra é o ponto de encontro entre a literatura, o teatro, o jornalismo e até a música. “Tem a ver com uma necessidade de expressão, tem a ver com uma inquietude. É um jeito de elaborar a vida, mas também um jeito de produzir beleza.”
Cada história encontra seu próprio formato
A produção de Aline atravessa diferentes gêneros, e ela conta que o formato geralmente nasce junto com a própria ideia. Há histórias que surgem como livros, outras como textos para serem falados e algumas já aparecem com ritmo de música.
Foi assim com “A Gente Não Foi Feita para Mofar”, que nasceu como letra de música. Já “Bagunça” surgiu diretamente como romance, porque, segundo ela, a história era grande demais para caber em um conto.
O processo também pode acontecer a partir do contato com o público. “O Maior Cachorro do Mundo”, livro infantil que será lançado em outubro pela editora Telaranha, começou com uma história que seu pai contava e que ela recuperou ao tentar entreter a filha de uma amiga.
A história do cachorro que acreditava ser enorme foi sendo contada e modificada conforme as crianças reagiam. O personagem ganhou novos elementos, e a narrativa foi sendo ajustada até chegar ao formato final.
“Cada vez que eu contava, eu contava diferente. Fui contando essa história em vários lugares, até chegar num modelo que era um modelo que eu gostava de fato. Por quê? Como as crianças reagiam.”
O Espírito Santo como matéria-prima
Nascida em Cachoeiro de Itapemirim, criada em Iúna e posteriormente moradora de Vitória, Aline considera que o Espírito Santo está diretamente presente em sua literatura.
As cidades onde viveu, os costumes, os modos de falar e as manifestações culturais fazem parte desse repertório. Cachoeiro aparece associada às memórias de uma cidade pequena, onde as pessoas conhecem a vida umas das outras, enquanto Vitória também influencia a escritora pelo modo de seus moradores se relacionarem.
“O jeito que a gente vive vai para o jeito que a gente fala. E o jeito que a gente fala vai para o jeito que a gente escreve. E o que a gente olha, o que a gente escuta, vira alguma coisa.”
Ela também enxerga a diversidade cultural do Espírito Santo como uma característica importante para quem produz literatura no Estado. Congo, Ticumbi, escolas de samba, Folia de Reis, cultura pomerana, forró, café, litoral, montanhas e Mata Atlântica aparecem, para ela, como parte de um território que não pode ser resumido a uma única identidade.
Para Aline, escrever continua sendo uma forma de expressão, mas também de permanência. A menina que encontrou nas palavras uma possibilidade de atravessar o tempo continua presente na escritora que hoje transforma experiências em livros, peças, poemas e músicas.
Se na infância a pergunta era como não morrer, a resposta encontrada ao longo dos anos permanece a mesma: escrever.
O bate-papo completo com Aline Dias está disponível nos perfis do VIXFeed no YouTube, em vídeo, e no Spotify, em áudio. O VIXFeed Entrevista recebe semanalmente convidados ligados à cultura, à economia criativa e à produção de ideias no Espírito Santo.

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