Atualizado em 17/05/2026 – 17:03
Há ruas que a cidade quase esconde de si mesma. No Centro de Vitória, o Beco das Pulgas é uma dessas passagens que parecem existir em outro ritmo, fora da pressa habitual das calçadas, dos carros e dos mapas. É ali que funciona o sebo de Marcos Graminha, livreiro, artista plástico e leitor compulsivo, daqueles que falam de Dostoiévski, Turma da Mônica, vampiros, Nietzsche e mangás com a mesma naturalidade de quem está apenas oferecendo um café.
O espaço fica no Beco das Pulgas, no Centro de Vitória, mas a história de Graminha com os livros começou bem antes dali. São 25 anos de sebo. Durante cerca de duas décadas, ele manteve a loja na região do antigo Ibis, em frente ao terminal. No começo, vendia basicamente mangás. O público era forte, fiel e ajudou a puxar uma outra frente de atuação: os eventos de anime.
“Eu fazia o Anime ES”, lembra. Segundo ele, foram cerca de oito anos realizando eventos no Espírito Santo, em uma época em que esse tipo de encontro ainda começava a se firmar por aqui. Depois de uma edição marcada por chuva forte, prejuízo e uma sequência de problemas, decidiu encerrar o ciclo. A partir dali, a loja foi migrando com mais força para o formato de sebo.
O início dessa virada teve cara de aposta. Graminha conta que comprou um lote de 3 mil livros de uma empresa de reciclagem na Serra. Pagou mais caro do que o valor do papel por quilo, levou tudo e montou o acervo inicial. “Na minha visão, aquilo era o começo. Eu ia transformar o sebo numa coisa legal”, conta.
Aos poucos, o material foi girando. Entraram livros melhores, quadrinhos, mangás, edições difíceis de encontrar e obras que atraem tanto colecionadores quanto leitores casuais. Hoje, Graminha afirma ter uma das maiores concentrações de quadrinhos do Espírito Santo. O foco do público segue muito ligado aos mangás e HQs, mas o sebo também recebe quem procura clássicos, literatura brasileira, livros de temas específicos e obras que já desapareceram das prateleiras convencionais.
No antigo endereço, o problema passou a ser o espaço. A loja tinha cerca de 20 metros quadrados e, segundo ele, chegou a funcionar com caixas empilhadas até o teto. Havia praticamente um corredor entre a entrada e a mesa. Ainda assim, Graminha sabia onde cada coisa estava. Ele atribui isso a uma memória fotográfica que ajuda a localizar títulos em meio ao aparente caos.
A mudança para o Beco das Pulgas aconteceu em 2023, no Carnaval. Vieram oito toneladas de livros, divididas em três caminhões-baú. Antes disso, o novo endereço precisou ser praticamente recuperado. O lugar, que já havia servido como depósito de materiais ligados a trabalhos de restauração de fachada, estava tomado por sujeira, sacos de terra e entulho. Graminha diz que tirou cerca de 400 quilos de terra do espaço.
O que parecia improvável virou loja. De um lado, o sebo. Do outro, o ateliê. A divisão traduz bem a vida atual de Graminha, que alterna a rotina entre os livros e o trabalho artístico. Ele atua na UFES, no Departamento de Biologia, em projetos que unem ciência e arte, especialmente ligados à divulgação científica, cultura oceânica, Mata Atlântica, aquarelas, esculturas e exposições.
Para ele, ciência e arte não competem. Cada uma oferece uma forma de olhar. O biólogo traz conhecimento técnico. O artista traz poesia, forma, narrativa. Quando as duas áreas se encontram, a ciência pode sair do lugar distante onde costuma ficar e chegar mais perto do público.
Essa lógica também atravessa o sebo. Comprar um livro com Graminha dificilmente se resume a escolher um título e pagar no caixa. Muitas vezes, a visita vira conversa. Ele indica caminhos, comenta autores, pergunta gostos, puxa referências. Conta que uma cliente saiu recentemente com vários livros depois de dizer que era bom comprar de alguém capaz de explicar o que ela estava levando.
“Eu amo livros. Sempre amei. Leio desde os 4 anos de idade”, diz.
A conta ajuda a entender o tamanho da relação. A loja tem cerca de 6 mil livros. A coleção pessoal dele tem aproximadamente 1.800. Dentro dela, há uma obsessão declarada por terror, magia e vampiros. Só de livros sobre vampiros, ele estima ter cerca de 800. No Skoob, rede social voltada para leitores, Graminha diz já ter registrado cerca de 6.800 livros lidos, somando mais de um milhão de páginas. E ainda faz questão de avisar que a conta está desatualizada.
Quando perguntado sobre indicações para o público do VIXFeed, ele evita a armadilha de escolher um único gosto universal. Para Graminha, cada leitor encontra o próprio amor. Ainda assim, defende alguns mergulhos. Literatura russa, especialmente Dostoiévski. Literatura brasileira, com Jorge Amado e Graciliano Ramos. E, claro, terror, incluindo autores e séries de vampiros, com destaque para o brasileiro André Vianco.
Nos quadrinhos, o movimento tem uma lógica própria. Mangá segue como o grande desejo de muitos visitantes. Turma da Mônica aparece pela força da memória afetiva. Super-heróis, segundo ele, conversam mais com o nerd de uma geração anterior. O nerd de hoje, observa, muitas vezes é gamer. Já os colecionadores de mangá têm suas obsessões particulares, como números iniciais e sequências difíceis de completar.
Mas o sebo de Graminha também fala de uma questão maior. A existência de livrarias pequenas, sebos e espaços de leitura depende de uma economia frágil. Ele diz que vender livro usado, no Brasil, mal paga o aluguel. Sem políticas de proteção ou incentivo, muitos espaços sobrevivem por teimosia, afeto e uma rede de clientes fiéis.
Talvez por isso o Beco das Pulgas tenha se tornado mais do que endereço. Quando chegou ali, Graminha se apaixonou pela rua. Achou curioso que uma passagem tão singular fosse tão pouco conhecida. Pensou em colocar vasos, plantas, sinais de presença. Para ele, quando um lugar tem planta, alguém entende que existe vida ali. E quando existe vida, a cidade olha de outro jeito.
Aos poucos, o beco também passou a ser reconhecido por outras ocupações culturais, encontros, festas e circulação de gente. O sebo faz parte desse ecossistema. Não como monumento, mas como uma porta aberta. Um lugar onde alguém pode entrar para procurar um mangá, encontrar um livro esquecido, tomar um café, conversar sobre Nietzsche ou simplesmente lembrar que o Centro de Vitória ainda guarda histórias que não cabem nas vitrines dos shoppings.
No fim, Graminha parece menos interessado em acumular livros do que em fazer circular conversas. Ele cita Zaratustra, de Nietzsche, para falar da imagem do homem que sobe a montanha, vê o mundo de cima e depois desce para levar outras pessoas junto. A leitura, para ele, tem algo disso. Conhecimento guardado sozinho perde força. Livro bom mesmo é aquele que puxa alguém para perto.
No Beco das Pulgas, entre caixas, estantes, quadrinhos, plantas, café e arte, Marcos Graminha vai fazendo o que o Centro de Vitória mais precisa: mantendo uma porta acesa.
Serviço
Vivelivros Sebo, Marcos Graminha
Beco das Pulgas, Centro de Vitória
Instagram: @marcosgraminha
Arte e pesquisa: @emegrama

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