“Eu vejo o futuro repetir o passado / Eu vejo um museu de grandes novidades”, cantou Cazuza. Há algo de assombroso nessa imagem quando uma sociedade resgata métodos de exclusão que deveriam permanecer como advertência histórica. No Brasil, listas para boicotar comerciantes por suas escolhas eleitorais revelam uma disposição autoritária: converter divergência política em punição econômica.

Em 1º de abril de 1933, poucos meses após Hitler chegar ao poder, o regime nazista organizou um boicote nacional a estabelecimentos de judeus. Sob a coordenação de Julius Streicher e a propaganda de Joseph Goebbels, tropas nazistas intimidavam consumidores diante de lojas e escritórios. O propósito ultrapassava a perda de faturamento: pretendia afastar os judeus da vida econômica.

A perseguição transformava o vizinho em inimigo e o comércio em instrumento de segregação. Antes da expropriação sistemática, consolidava-se a ideia de que determinadas pessoas não mereciam clientes, trabalho ou pertencimento. O boicote nacional durou um dia, com adesão desigual; o projeto de exclusão prosseguiu, amparado por leis, violência e confisco.

Seria historicamente irresponsável equiparar o Brasil contemporâneo à Alemanha nazista ou diluir a singularidade do Holocausto. Mas reconhecer diferenças não exige fechar os olhos às práticas. Identificar pessoas, elaborar listas e tentar asfixiar seu sustento são mecanismos de exclusão presentes no repertório autoritário. A história não precisa se repetir integralmente para que seus sinais sejam reconhecidos.

Essa lógica reaparece nas campanhas contra comerciantes identificados como eleitores de Lula. O adversário deixa de ser alguém com quem se disputa democraticamente e passa a ser alguém cuja subsistência se pretende inviabilizar. Impõe-se um tributo à liberdade: quem votar diferente deverá pagar com o próprio sustento.

Escolher onde consumir é uma liberdade. Organizar ameaças e constrangimentos para disciplinar o voto alheio é uma ofensiva contra o pluralismo. A democracia se deteriora quando o reconhecimento do outro como cidadão fica condicionado à sua obediência política.

Aos que invocam Deus enquanto desejam a ruína do próximo, cabe recordar 1 João 4:20: “Se alguém diz: ‘Eu amo a Deus’, mas odeia o seu irmão, é mentiroso.” O amor cristão não admite cláusula de afinidade eleitoral. Quem transforma o pão do próximo em instrumento de vingança pode ostentar a fé, mas contradiz seu mandamento.

Lucas Rezende é jornalista e especialista em comunicação política e gerenciamento de crises. Dirige a LR Comunicação.

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