Onde vocês param pra conversar no bairro em que vocês moram? Costumava encontrar conhecidos dos quais nem sempre sabia o nome, saudá-los com a cabeça lá depois do décimo quinto dia consecutivo que o via pela rua. Os capixabas nascidos e praticantes sabem muito bem sobre a morosidade do processo. Fato é que o bairro é um lugar de encontrar pessoas, seja lá o formato de cumprimento a que se deseja comunicar. Assim como o lugar da poesia é na calçada, o lugar de socializar é a rua. É também na rua que o Sérgio Sampaio quer colocar o bloco. Este lugar, que nos liga e nos põe em contato com outras pessoas, seja no banco da praça ou na esquina ali em frente, este lugar está em obras no Centro de Vitória.
Com um planejamento que, para quem vive no bairro, parece se dissolver num completo caos. Numa lógica de Penélope: “de dia, tramas, de noite, traças”. As obras da Sete se faziam num dia, no outro, estavam remendando. Ao andar a pé pelo Centro, a pessoa vem sendo obrigada a disputar o asfalto entre os carros e bicicletas de todo o tipo pra poder passar. Um pouco de calçada, merda de cachorro, um retângulo quebrado no chão com cano exposto e uma faixa laranja diminuindo o espaço de passagem. Logo mais adiante, um vergalhão, lixo rasgado, mais interdições, só que do outro lado da calçada. Se andar de carro, passa raiva para estacionar. Agora que o rotativo caiu, as vagas tão mais disputadas, só que, além disso, com a quantidade de intervenções por metro quadrado, falta espaço pra estacionar.
Eu estava achando que essas questões que atravessam a rotina poderiam ser apenas da ordem do estresse, de uma readaptação, mas está complicado viver o dia a dia no Centro sem espaço para estar na rua. Outro dia, conversei sobre isso com a Aline, já que ela também mora nessa Vila do Chaves. Ela me perguntou se não seria muito teoria da conspiração pensar que a direita teria diminuído o espaço de socialização do Centro de Vitória às vésperas das eleições. Ela me lembrou disso, que o nosso bairroremendado é um território de esquerda e que está emconstante disputa.
A gente começou, então, a enumerar os espaços de socialização da rua que sofreram mudanças com as obras, porque decidiram pocar todo o bairro de uma vez. Lugares privados e públicos. A rua Sete de Setembro abrigava a Feira Livre, que era prenúncio do Samba da Xepa. A casa da Stael, o Bar do Geraldo, as galerias, a Chopperia, com todos os seus nomes, apelidos e filiações. Todos os estabelecimentos dali e ao redor sofrem constantemente o impacto dessa obra e, com certeza, em algum momento, tiveram que abrir só uma gretinha da porta porque o resto da calçada tava pura água de esgoto. Também não acessamos mais aos poucos espaços gratuitos de convivência do bairro, a pracinha da Ubaldo Ramalhete, que acolhia gente de todas as idades, além de ensaios de Carnaval e os festejos que também passavam por ali.
Noto, porém, que, paralelo a isso, a cada poça gigantesca que temos que saltar de uma calçada em obra pra outra, o bairro se movimenta. Não é meramente reação, mas relação. As obras afetam, mas não podem limitar o que é legítimo, a gente se relacionando com esse caos, botando a boca na rua, o “corpo no mundo”. No último domingo, o Centro abriu as portas num evento que demonstrou um pouco da capacidade múltipla e coletiva do nosso bairro. A gente é assim também nos dias úteis. Estamos, porém, com pouco espaço na calçada pra colocar o papo em dia e perguntar pro vizinho se ele também acha que a falta de planejamento é planejada.

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