Um começo é sempre estranho. Em todos os começos é preciso tatear os caminhos sem inventá-los. Não importa se você é paranoica, ficcionista, ansiosa ou poeta: a realidade vem. Ela existe e o começo que vire um meio se quiser.
Você nunca sabe qual detalhe espanta ou aproxima outra pessoa. Em começo de amor a gente descobre detalhes. A gente se encanta com detalhes. Ao longo dos anos me disseram gostar do agudinho que faço imitando o Tico e o Teco, da vitalidade de minhas piadas (“você nunca deixa a piada morrer”), do meu fígado e do meu biquinho.
Detalhes tão pequenos são coisas muito grandes, dizem Roberto e Erasmo. Em começo eu não sei qual vai ser o grande detalhe inesquecível da pessoa em mim ou meu na pessoa. Vai ser de novo o fritar das cebolas? O jeito de escaldar a garrafa de café? O cantarolar, o silêncio, a ponta das unhas ligeiramente antes do joelho…
O cheiro?
Cheiro não é detalhe porque combustível nenhum é detalhe de locomotiva. Cheiro é combustível. Então se começamos e eu gosto do seu cheiro eu tenho ferramenta de caminho, e continuo. Esse começo com cheiro já é meio, Fulano. Não quero nem pensar em fim.
Que detalhe te chama, Fulano? O que me chama é o tremor. Sempre foi o tremor. Fulano treme. Mas o tremor não é detalhe, é um terremoto. É a gente sendo tomado um pelo outro e reagindo. Eu tremo.
Seria bastante fácil se eu pudesse criar um protocolo. Fulano mande-me uma lista de detalhes seus em três vias para eu saber se gosto. Quero apenas detalhes pequenos que são coisas muito grandes.
E aí eu ia ter que confiar na curadoria de Fulano.
Fulano me diria ser romântico e calado, mas eu gostaria de saber se anda de bicicleta e como se estabelece sua relação com a farofa, os ovos, os pães e o café.
E eu também teria que compartilhar os meus detalhes. Eu diria: Fulano, eu gosto de fazer castelo de areia na praia, de rimar e contar métrica, de imaginar qual raça de passarinho canta na janela, mas nunca checar.
Mas Fulano gostaria de ver o timbre do meu suspiro, o lugar em que nasce a remela, a embocadura de minha mordida. Fulano quereria entender pra que lado venta, mas sem pensar muito, porque fulano gosta de içar as próprias velas e deixar que eu vente.
Isso tudo vejo dentro de minhas hipóteses de Fulano. Invento Fulano, e é percebendo que invento que percebo ter interesse. Enquanto isso, na realidade a gente não resolve nada.
Nenhuma lista e nenhuma hipótese resolvem o caminhar.
PS: queridas leitoras e leitores, estou lançando livro novo. É um infantil que fala sobre um cachorro muito fofo: “O maior cachorro do mundo”. Para mim, vai ser uma alegria se vocês quiserem conhecer e levar o Narcisinho pra casa. <3

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