Atualizado em 02/07/2026 – 15:45
Quis te contar as coisas que disse sobre você, até o apelido secreto que te dei pra ninguém saber que você é você. E não contei. Não fiz nenhuma das gracinhas que pensei em fazer, eu optei pela coragem.
Disse que estou machucada, disse que te amo, disse que sei que você nem me ama nem quer amar. E você baixou a cabeça e me perguntou como a gente faz.
Eu devolvi a pergunta.
Queria que houvesse uma resposta diferente da distância. Nomeei: me sinto rejeitada. Assinalei: quero viver um grande amor. E você me disse que estamos em momentos diferentes porque você não quer um grande amor.
Sem que nos olhássemos nos olhos direito, sua tentativa de me acalentar foi uma sequência de elogios que de nada valem. Eu sou linda, eu sou gostosa, eu sou foda, eu sou uma grande presença no mundo. E daí se você não me ama?
A única gracinha que fiz foi uma tragédia. Te contei que me identifiquei com uma música que Wanessa Camargo fez para Dado Dolabella. Você se assustou: “Ana, isso é tortura! Você estava se torturando!”
Não, eu estava sofrendo. Foi uma importante virada de chave. Eu entendi que estava vivendo errado se estava parecida com “o amor não deixa”. Omiti a canção, é claro. Há um nível de humilhação que a gente não precisa alcançar.
Eu já estava completamente aberta e vulnerável narrando sentimentos que eu sabia não serem correspondidos, explicando todas as coisas que me machucaram e dizendo por que é importante ficar longe.
Ainda que eu te ame, ainda que você comece a fazer parte da minha vida. Ainda que eu goste de você na minha vida. Encostei na sua mão pra dizer que não tem como eu achar um grande amor se estiver ligada a você.
E você parecia triste ao concordar. Resignado, ciente do inevitável destino. Está insustentável. É um idílio que não evolui.
Você quer que eu seja sua amiga. Você me acha uma companhia muito legal. Mas eu não tenho esse sangue frio. Consegui dizer: não quero ser sua amiga. Foi bem duro entender isso, dizer isso, sustentar a separação.
Deixa o tempo passar.
Meu discurso não foi cinematográfico, não teve chuva, não foi um grande gesto dramático. Foi uma conclusão. Uma pontuação. Uma verdade.
Depois de tanta cama e tanta pele eu não consigo querer ser amiga. Você me perguntou o que a gente faz. Eu disse que você pode me amar.
Mas você não pode. E você também acha isso tudo muito triste.
P.S.: se você gostou deste conto, talvez goste do meu livro A única coisa que fere é manhã pós-amor: https://www.editoramare.com/poesia/a-unica-coisa-que-fere-e-manha-pos-amor

Os principais eventos do ES toda semana no seu e-mail, totalmente grátis.




