Atualizado em 19/06/2026 – 16:21
É indescritível a sensação de chegar em casa de uma viagem, colocar roupa pra lavar e se deitar no próprio travesseiro. No entanto, ultimamente, isso não tem acontecido até que eu coloque no papel e passe os acontecimentos a limpo sob uma ordem que nem sempre segue a cronologia dos fatos ou mantenha fidedignidade aos envolvidos.
Estivemos por três dias na região de Andalucía, dirigi pela primeira vez em terras estrangeiras e talvez também tenha inaugurado as multas na carteira. Diria que foi uma bela estreia, não fosse o desespero que vivi ao chegar com o carro alugado no Centro Histórico de Málaga e perceber que ali era área reservada a pedestres. Desatentos, eles passavam e se acumulavam pelos cantinhos enquanto a população do carro, aos gritos, parecia também se multiplicar. Todos ali tentando encontrar uma saída, menos o geolocalizador que nos levou até lá.
A aventura não se resumiu apenas às multas acumuladas por conduzir em vias proibidas (até porque havia também aquelas por excesso de velocidade). A viagem nos apresentou uma Espanha diferente, vibrante, dramática, quente… Uma quentura não só mais úmida, mas um pouco mais próxima da América Latina. A região de Salamanca é árida, seca. Isso se apresenta na paisagem. Na volta, dentro do carro, foi possível notar a mudança drástica, desde as montanhas e vales sinuosos do Sul ao horizonte aberto e amplo do Norte, vulnerável aos apelos do vento. Quando vi Salamanca de longe, entendi o motivo pelo qual o céu varia tanto ao longo do dia e talvez, indo pro Sul, tenha visto que a secura do clima atravessa o modo de vida do salamantino, mas o jeito árido não resume o povo espanhol. Até porque as senhorinhas que dividem comigo os bancos do parquinho são atenciosas e dóceis. Mesmo elas ouvindo pouco e driblando os estrangeirismos do meu sotaque, as velhinhas acolhem e mantêm viva a esperança de que um dia ainda receberei um convite para almoçar na casa de uma delas.
No Sul, por outro lado, circulava pelo circuito turístico das cidades, o que não me permite projetar refeições na casa de senhorinhas espanholas, nem viver uma experiência de cidade de profunda conexão. Os trabalhadores do comércio têm pouca paciência, devem receber pouco para o tanto de função a que acumulam. Além disso, são frequentemente maltratados por gente estúpida, da chefia ao cliente. Topamos sempre com turistas estúpidos dividindo ruelas e disputando espaço para a melhor pose. Os garçons também englobam esse grupo, jogam cardápio na mesa, cobram valores extras e se recusam a ser refutados enquanto falam em inglês, mesmo me ouvindo em espanhol. Curioso que, para exigir respeito a um deles que falava comigo em inglês (e nos cobrou erroneamente nove euros num cañón), eu disse: “habla conmigo en español, si me escuchas en español”. Para ele, a marcação da minha identidade estrangeira era importante, o que me garantia não só o atendimento meia boca, mas que nos fosse enfiada goela abaixo uma conta que ofendia a nossa inteligência.
Essa estrutura de plano turístico dificulta o acesso à cultura local. Entre ímãs de touro e a hostilidade dos atendimentos, estão cidades que contam a história de vida e resistência de um povo subalternizado por aqueles que queriam preservar privilégios próprios. A herança não está na figura do espanhol implantada na bravura de domar e sacrificar um animal, mas no jeito de corpo, no modo de cantar a intimidade, de fazer som, nos palmeos que começam baixo e vão levando, de repente, toda uma plateia.
Em Málaga, fomos ao Teatro Cervantes, no show de um cantante que era da cidade. Comecei a ouvir El Kanka ainda no Brasil, gostei das histórias que as letras cantavam em ritmos que me lembravam o flamenco, numa rotina de afetos que facilmente poderia ser a minha. No show, o corpo de Kanka se uniu ao da plateia, que escutava as suas histórias e as tomava para si. Embora as referências da construção do teatro não sejam propositalmente parecidas com as de uma plaza de toros, os nossos ingressos eram tão distantes do palco que o banco de madeira desconfortável e o ângulo nas alturas tornaram aquele espaço uma arena. Não havia disputa, a não ser pelo coração da amada que era cantada por Kanka e seu violão colado ao peito, que ritmava os olhares dos casais apaixonados na plateia.
Estar neste espaço “familiar espanhol”, isto é, lugar onde vai o povo local, que aguardava para cantar junto e de olhinho fechado um grande cantautor da região, não nos eximiu de ouvir gente que poderia soar como grosseira, não fosse a diferença cultural. Chegamos ao teatro trinta minutos atrasados e as “cadeiras”, os tais bancos de arquibancada a que me referia, haviam sido remanejadas. Foi isso que nos explicou a moça que me respondeu objetivamente quando a refutei sobre o lugar. Isso fala mais sobre a pontualidade espanhola do que de fato de uma grosseria gratuita. Encontramos um lugar diferente do marcado, mas nenhuma pessoa estúpida marcou a experiência. Pelo contrário, estar naquele teatro ouvindo o modo espanhol de lidar com as angústias e alegrias da vida me fez entender um pouco melhor sobre eles.
Vale pensar o que a Espanha deseja oferecer como turismo, que experiência cultural é apresentada aos estrangeiros não residentes. Não acredito que a visitação massiva de turistas, que faz circular a economia e uma cultura da estupidez, represente a cultura local. Tampouco que a má sinalização das vias nas ruas da região histórica seja despropositada. Nesse esquema, parece que alguém está sempre disposto a tirar dinheiro do turista, seja os órgãos de trânsito ou um garçom mal-educado. As disputas pelo território permanecem ali, embora estejam agora atravessadas por uma realidade atualizada. Os atores que orientam essa rede repetem padrões anteriores de depredação moral. O processo de ressignificação daquele espaço, que é um espaço de memória, torna-se descorporalizado, desapropriado.
Se a gente dribla, porém, as avenidas principais e caminhamos por ruas estreitas, elas podem nos levar a saberes outros, aqueles que são transmitidos pelo corpo e, por isso, isentos de qualquer taxação. As vielas não admitem a lógica de exploração, pulsam o caminho entrelaçando veias, ventres, vozes. Elas unem corpos que, normalmente, se juntam aos domingos para comer e, no final do dia, a mesma mesa que serviu o almoço serve de instrumento para um refrão sofrido que todos sabem cantar.
*“Andalucía te quiere” é o refrão da música Andalucia, de El Kanka.

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