Atualizado em 04/08/2026 – 12:26
A chapa que o governador Ricardo Ferraço (MDB) apresentou nesta terça-feira (4) foi montada com precisão de engenharia. Cada peça tem uma função. Camillo Neves (PP), 34 anos, vereador de primeiro mandato em Vitória, entra para rejuvenescer a composição, dar palanque na capital e, sobretudo, garantir que a Federação União Progressista, com seu tempo de TV, seu fundo partidário e suas chapas completas, permaneça na coligação. A federação condicionou o apoio à indicação do vice. Foi atendida.
Que o escolhido tenha sido eleito, em 2024, na coligação de Lorenzo Pazolini, hoje o principal adversário de Ferraço, e que tenha votado com a base do então prefeito durante todo o primeiro ano de mandato, antes de romper em uma disputa de poder pela Mesa Diretora da Câmara, é um capítulo que diz muito sobre o pragmatismo da política capixaba. Camillo trocou de partido a cada eleição que disputou: PTB, PV, PP. Trocou de campo no meio do mandato. E foi justamente essa disponibilidade que o credenciou. Na engenharia da chapa, fidelidade a projeto não era requisito. Maleabilidade, sim.
Mas o que mais revela essa chapa não é quem entrou. É quem nunca esteve na conta.
Nas semanas de negociação pela vaga de vice, discutiu-se idade, região, capacidade de mobilização, tempo de rádio e TV, fundo eleitoral, o humor da federação. Todos os critérios foram publicamente ventilados, dissecados em colunas, medidos em bastidores. Gênero não apareceu uma única vez como fator de decisão. Não foi rejeitado: simplesmente não entrou na pauta. O resultado é uma dobradinha ao Palácio Anchieta formada por dois homens, ao lado da candidatura ao Senado de Renato Casagrande (PSB), o nome de maior peso do mesmo campo político.
A ironia é que esse campo já soube fazer diferente. Entre 2019 e 2022, o Espírito Santo teve Jacqueline Moraes como vice-governadora: mulher, negra, da periferia da Grande Vitória. Sua presença na chapa de Casagrande em 2018 provou que a composição de uma majoritária pode carregar um projeto de representação, e não apenas uma soma de siglas. De lá para cá, o mesmo grupo montou duas chapas seguidas ao Executivo estadual, Casagrande-Ferraço em 2022 e agora Ricardo-Camillo, sem nenhuma mulher. O retrocesso foi naturalizado.
Às mulheres do arco governista restaram as funções de sustentação. A auditora Juliani Nunes foi anunciada como coordenadora do programa de governo, posto técnico, sem voto e sem visibilidade de urna. A capitã do Corpo de Bombeiros Andresa Nascimento, cotada nos bastidores para a vice, com alcance real nas redes e perfil jovem, ficou pelo caminho sem que ninguém precisasse explicar por quê. A mensagem que sobra é conhecida: mulheres podem organizar a campanha, não encabeçá-la.
Não se trata de cobrar cota simbólica em chapa majoritária. Trata-se de constatar que, num estado onde mulheres são mais da metade do eleitorado, a principal aliança política em disputa pelo governo conseguiu discutir publicamente todos os critérios possíveis para a escolha de um vice, menos esse. A diversidade não perdeu a queda de braço. Ela não foi convidada para a mesa.
A chapa Ricardo-Camillo provavelmente cumprirá bem a função para a qual foi desenhada: somar tempo de TV, acomodar a federação, equilibrar idade e geografia. A eleição dirá se a engenharia vence. Mas convém registrar, desde já, o que essa montagem ensina sobre as prioridades de quem disputa o poder no Espírito Santo em 2026. Quando tudo é negociável, o que não entra na negociação é o que menos importa para quem negocia. E, nesta chapa, o que não entrou tem nome, tem gênero e tem metade do eleitorado.

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