Atualizado em 07/05/2026 – 15:53
Eu vi na internet que quem planta tâmara não colhe tâmara. Depois, li num poema que “uma tâmara é suficiente para um beduíno se manter a marcha por três dias”. Comprei tâmaras.
Não tenho costume de tâmaras, mas abriu uma loja de grãos do lado de casa, e a poeta Jeovanna Vieira continua o poema dizendo não é beduína, não quer marchar e não gosta de tâmaras.
Eu entendi que a tâmara podia me ajudar a atravessar meu deserto. Não achei o gosto muito bom, do deserto, da tâmara, desta metáfora. Mas a metáfora pode salvar uma vida e a poesia me ensina muita coisa.
Comi a tâmara e estou tentando marchar. Eu não conhecia nenhum ditado árabe antes de ler o poema, só tinha visto que quem planta tâmara não colhe tâmara, e que isso quer dizer pra pensar no futuro e nas pessoas que vêm depois da gente.
Meu deserto não é literal, e o que quer que eu plante também talvez eu não colha. Eu planto metáforas. Tenho sentido coisas complexas, e escrevendo sobre elas durante essa minha estadia no deserto, consigo marchar.
Um poema me alimenta por três dias enquanto eu marcho. Eu falo de trabalho quando falo de marcha. Como posso eu odiar tanto um trabalho e ao mesmo tempo ser tão grata por ele?
Não é a primeira vez que me acontece de odiar trabalhar, e também não é a primeira vez que sou grata pelo trabalho que odeio. Acho que isso não me faz especial, mas adulta.
Comprei lágrimas (um colírio) pra ficar mais tempo em frente ao computador, já que não dá tempo de chorar. E aí o colírio faz o trabalho de não deixar meu olho seco durante o deserto.
Meu deserto é esse tempo com trabalho demais e gente de menos, os amigos reclamando a minha ausência e eu pensando que sem dinheiro não dá nem pra flertar. Meu deserto já tem um caminho de virada, é como uma quaresma.
A tâmara alimenta os viajantes por três dias porque no primeiro dia você come a casca, depois a polpa, depois a semente. Eu comprei a tâmara desidratada e sem semente. Acredito que eu não tenha uma tâmara de fato, mas uma metáfora.
Comprei por quatro reais um punhado de esperança em formato de tâmara. Vai passar, Aline. E talvez depois de passado o tempo de deserto, você conheça um deserto literal e tire fotos bonitas em cima de camelos.
Mas também vai voltar, Aline. Considerando que o tempo cada hora tem uma coisa, é importante a metáfora. É importante ter com quem passar os dias ruins. Acho que começo a gostar de tâmaras.
Foram elas que me mostraram pela língua que o tempo, ele passa, e a marcha, ela tem rumo.
* O poema citado no texto faz parte do livro Deserto Sozinha, da escritora capixaba Jeovanna Vieira.

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