Atualizado em 26/03/2026 – 16:36
Minha amiga Márcia está triste. Percebeu que quase morreu de dois jeitos distintos por esses dias. Chegou bêbada e ligou o fogão pra esquentar uma janta, mas dormiu sentada e acordou horas depois com cheiro de queimado impregnado, a janta um carvão e ela mesma viva. A casa não pegou fogo, nem Márcia.
Márcia anda esquecida porque percebeu depois de muito tempo vivendo que já estava apaixonada irremediavelmente, e que não era correspondida. Márcia quase morreu de dois tipos diferentes de fogo: o amor e o gás. Teve sorte.
Aos soluços, ela conta que se sentiu parte do fogo e da panela, a comida queimada, ela mesma defumada de amor e fuligem. Um amor tão triste, Aline, ela chora. Um amor mal ajambrado, ela soluça.
Márcia conta que percebeu muito tempo atrás que havia a possibilidade de amar, ela mesma acendeu aquele fogo, mas Donato abriu o gás. Parecia muito interessado e depois nada interessado. Um jogo de morde e assopra que Márcia ignorou porque achou que era mais negócio ir trabalhar.
Que mal teria adiar o problema? Donato aparecia periodicamente sem compromisso mas com um cheiro muito bom. Dizia as coisas certas, acolhia, estava. Até eu te amo ele dizia. E Márcia ali sem entender que tipo de presença era aquela.
Eu era como a panela, Aline, não vi o fogo aceso antes do estrago, e quando vi estava tudo fedido e impregnado. Donato não doava nada. Não amava ninguém. E triste de notícia em notícia, Márcia sente culpa em estar viva.
Donato não me quis e me ocupou, mas não me matou, não me bateu, só fingiu que amou. Que mal tem? Donato não se chama de alfa e nem segue nenhum red pill.
Abraço Márcia e digo querida, eu entendo, eu também já servi muito homem. Ela acha que inventou tudo sozinha porque produzia toda a relação inexistente esperando um beijo ou outro que aparecia bimestral.
É a terceira vez que Márcia me diz que mandou Donato pastar, mas dessa vez eu acredito porque ela tem cara de triste, ela tem cara de crise, ela ri dizendo que está pronta já para a próxima desilusão.
Fosse eu no lugar dela, tinha tido muito mais raiva. Ela só lamenta o tempo, o gasto, o dinheiro à toa, a viagem não feita, o amor não vivido, a espera mal comunicada. Ainda entende o lado dele, a Márcia. Donato tem medo de amor, Aline.
Eu também tenho muitas vezes, e acho que eu e Márcia temos mais motivo de medo do que o tal do Donato. É a gente que acaba morta por marido, por ciúme, por dizer não. É a gente que acaba ameaçada e engasgada e violada, assediada e punida ainda por não ter aceitado o assédio.
E segue Donato bonito jogando conversa fora na orelha das meninas. É um cara legal, sensível, não segue nenhum red pill, não está matando nem roubando. Ele só não está pronto pra se envolver.
Donato abre o gás, acende o fogo e depois diz: nunca prometi. E de amor em amor individual a gente mal escapa de um problema coletivo:
Márcia não tem que achar errado ter se apaixonado. E aliás, ninguém tem. Nem eu. Tu serás sim, Donato, eternamente responsável pelo fogo que cultivas.

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