Atualizado em 26/03/2026 – 17:34
O Governo do Espírito Santo lançou, nesta quarta-feira (26), o Atlas das Mulheres do Espírito Santo, resultado de uma pesquisa inédita que ouviu mais de 1,4 mil mulheres e percorreu mais de 16 mil quilômetros em diversas regiões do Estado. A iniciativa reúne dados estatísticos e escuta qualificada para traçar um retrato aprofundado das múltiplas realidades femininas capixabas.
Desenvolvido entre 2023 e 2025 pela Secretaria Estadual das Mulheres (SESM), o estudo envolveu 155 ações de campo e rodas de conversa com 19 segmentos sociais, abordando 31 temas. O material cruza informações do Censo 2022 e de bases nacionais com relatos diretos das participantes, resultando em uma obra com mais de 600 páginas. O material está disponível no site da SESM.
Entre os principais dados, o Atlas revela que 48,14% das mulheres entrevistadas são as principais provedoras de seus lares, índice próximo ao registrado pelo IBGE (45,5%). Apesar do protagonismo econômico, a pesquisa evidencia a sobrecarga feminina, agravada por desigualdades raciais e sociais que impactam renda, acesso ao trabalho e qualidade de vida.
Para a coordenadora do projeto, Jaqueline Sanz, o Atlas funciona como um “mosaico de vozes” que tira da invisibilidade grupos historicamente negligenciados. Cada uma das seções do livro encerra com ações prioritárias, que servem como guia para gestores públicos e sociedade civil em áreas como saúde, educação e segurança.
“As rodas de conversa se tornaram fóruns de reflexão, locais de falas potentes e palco para narrativas de experiências e vivências marcantes e profundas. Em grande medida, as mulheres viam as rodas como uma ponte entre elas e o poder público, sobretudo em relação às demandas relacionadas a políticas públicas. Por essa razão, resolvemos usar esses pontos destacados por elas nas rodas no formato de ações prioritárias para ajudar os gestores públicos nesta missão”, explicou.
Protagonismo feminino e sobrecarga
O levantamento mostra que, em segmentos como trabalhadoras domésticas (76%), mulheres idosas (75%) e periféricas (64,4%), a responsabilidade financeira dentro de casa é ainda mais acentuada.
Mesmo com esse protagonismo, o Atlas aponta que a autonomia econômica feminina esbarra em barreiras estruturais, especialmente quando atravessada pelo fator racial. Mulheres negras seguem na base da pirâmide social, com menor acesso a oportunidades e renda.
Um dos diferenciais do Atlas é a combinação entre números e escuta ativa. Ao longo do material, frases e relatos das participantes ajudam a traduzir emoções, vivências e desafios cotidianos.
Educação e desigualdades no campo
A pesquisa também evidencia disparidades importantes no acesso à educação, especialmente entre mulheres que vivem em áreas rurais e comunidades tradicionais.
Entre os grupos com maior incidência de baixa escolaridade estão mulheres pomeranas (38,5%), assentadas e acampadas (37,5%), pescadoras e marisqueiras (35,1%) e agricultoras familiares (33,9%).
Relatos apontam abandono escolar precoce, dificuldades de deslocamento e até preconceito como fatores que contribuem para esse cenário. Ainda assim, há histórias de retomada dos estudos na vida adulta, motivadas pela busca por autonomia.
Maternidade impacta carreira na ciência
O Atlas também lança luz sobre a desigualdade de gênero na carreira científica. Embora as mulheres estejam presentes na base da pesquisa acadêmica, apenas 27% das profissionais com mais de 21 anos de atuação são mulheres.
Nas rodas de conversa, cientistas relataram desafios para conciliar maternidade e progressão na carreira, em estruturas que ainda não consideram essas especificidades.
Um mosaico de múltiplas realidades
O Atlas reúne ainda recortes sobre mulheres de comunidades tradicionais, como quilombolas, indígenas, ciganas e pomeranas, além de mulheres em situação de rua, grupos historicamente invisibilizados.
Entre as mulheres em situação de rua, por exemplo, 92% se autodeclaram negras, evidenciando o recorte racial da exclusão social. Os relatos também revelam desafios extremos, como a separação dos filhos, violência constante e falta de acesso a itens básicos de higiene.
Já nas comunidades tradicionais, o estudo aponta tanto a força da identidade cultural quanto o impacto do preconceito e da dificuldade de acesso a serviços públicos.
Ferramenta para políticas públicas
Mais do que um levantamento de dados, o Atlas foi concebido como instrumento para orientar políticas públicas mais eficazes e sensíveis às diferentes realidades das mulheres.
“A ideia é que esse formato de escuta seja contínuo, para que possamos compreender as múltiplas realidades e pensar políticas públicas mais adequadas”, afirma a secretária de Estado das Mulheres, Jacqueline Moraes.
O material também propõe contribuir para a educação cidadã, o enfrentamento à violência de gênero e o fortalecimento da equidade.

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