Eu não sei porque é tão desconcertante rever um grande amor. Esta semana vi três: um passageiro, um arrastado e um malfeito. Acabaram diferentes, por desatenção, por cansaço, por tristeza. Não importa.
Por nenhum deles eu passo impune.
Olhar nos olhos de uma pessoa em cujos braços estive. Não estar contra o peito de quem eu disse te amo. Imagina… Eu disse te amo. E não tem mais amor, e a pessoa não desapareceu magicamente depois que o amor acabou. A pessoa existe ali desamada.
Não sei o que se passa do outro lado, e talvez eu não me interesse, talvez sim. O que acontece dentro do outro que não tem mais amor por mim? Eu deixo de ser importante? Que tamanho a gente tem que ter pra caberem todos esses amores?
Passou, mas é amor. Foi amor. Sei lá! Passou por cima de mim, me manchou toda, me assombrou, me tirou do lugar, me fez chorar, me fez vomitar. Eu vivi, eu comi, eu me embrulhei. Suspirei e tive o contrário do refluxo, engoli saliva, solucei. Lambi tanto, meu deus!
Lambi física e metaforicamente todos os amores que tive. Usei toda língua que eu tinha e tenho, e ainda uso. Meus ex-amores existem. E toda vez que vejo eu penso no que não foi, no que foi, no que é. Lambo a ferida. Vai ficando normal? Acho que depende do tamanho do estrago.
Já me estragou muito, então, por mais que agora eu ache ele até um pouco feio, fico triste que ele exista. Achar feio é meu primeiro passo em desamor. É tão feinho, o J. Desamo mesmo?
É mentira que todo mundo fica feio depois do amor. D. nunca ficou feio, só não me amava. Continua sendo lindo, ótimo, talentoso e tendo o lábio superior mais bonito do planeta. Como A. tem as narinas mais bonitas do planeta.
A. continua lindo e engraçado. Eu soube que ele tem um filhinho. Mandou fotos, uma criança de bochechas rosas que é a cara de A. Fiquei feliz em saber que ele está feliz e tem um filho enérgico.
Eu queria torcer pela alegria de todos os amores como torço pela alegria de A. e de D. Não é uma questão de tempo. L. aconteceu em fevereiro e eu fico feliz que ele esteja feliz sem mim em abril.
J, de dezembro, eu quero que morra. Aliás, eu quero que sofra. Eu quero que saiba. Um breve momento e os olhos dele eram um lago barrento. Ele sabe o tamanho da cagada. Eu, firme, baixei o queixo em cumprimento e segui adiante sem dar uma palavra sequer.
Talvez não seja desconcertante todo grande amor. Pensando neles, reparo que só me bagunçam os que me estragaram.
É que eu me sinto burra em ter deixado.
Mas como é que eu ia viver se não deixasse a vida acontecer? E agora esse povo que me estraga segue vivo e eu tentando me equilibrar entre medo e desejo de amor.
Respiro para preparar o salto.
Há, ainda, muita saliva no mundo.

Os principais eventos do ES toda semana no seu e-mail, totalmente grátis.




