“Quando a gente chega, a gente de fato consegue fazer mudanças e transformar a política.” A declaração é da candidata a deputada estadual Camila Valadão (PSOL), primeira entrevistada da série “Poder Delas”, do VIXFeed. O projeto ouve mulheres que estão ou estiveram em cargos no poder público à respeito de suas trajetórias e os desafios de ocupar espaços de decisão. Na conversa, Camila falou sobre representatividade feminina, sua experiência na política e as pautas que pretende priorizar caso seja reeleita.
“Eu acho que é reflexo mesmo dessa nossa sub-representação, porque a gente observa poucas mulheres nesses espaços, poucas mulheres candidatas, então a gente passa a não se ver mesmo, e a não se reconhecer”, afirmou Camila durante a entrevista.
Assistente social e doutora em Política Social pela Ufes, Camila iniciou sua atuação política ainda no movimento estudantil e, posteriormente, na defesa dos direitos humanos e das pautas ligadas às mulheres e à juventude. Em 2014, foi candidata ao governo do Espírito Santo e, em 2020, foi eleita vereadora de Vitória. Dois anos depois, chegou à Assembleia Legislativa, onde disputa novamente uma vaga em 2026.
“A gente não se reconhece”
Para Camila, a baixa presença de mulheres na política interfere também na maneira como meninas e jovens enxergam as próprias possibilidades. Ela afirma que, antes de se tornar candidata, apesar de já ter uma trajetória de militância, nunca havia se imaginado ocupando um cargo eletivo.
A parlamentar também chama atenção para a baixa presença de mulheres negras nesses espaços. Segundo ela, é a segunda deputada estadual negra da história do Espírito Santo. Em sua entrevista ao VIXFeed, Camila destacou que, ao longo dos 190 anos de existência da Assembleia Legislativa, apenas 17 mulheres haviam sido eleitas deputadas e somente duas delas eram negras.
“De fato, se ver representada com tanta desigualdade é um desafio”, afirmou. Para ela, ampliar essa presença é uma forma de fazer com que os espaços de poder reflitam melhor a diversidade da população.
A experiência de ocupar a Assembleia também mostrou, segundo Camila, a importância da presença feminina para inspirar outras mulheres. Ela contou que percebe a reação de estudantes que visitam a Casa e se surpreendem ao encontrar mulheres jovens exercendo o mandato.
“Eu acho que a gente passa a inspirar mais mulheres para estar nesse espaço”, disse.
Uma política que também acolhe
Além da representatividade, Camila defende uma maneira de fazer política que, segundo ela, também esteja ligada ao cuidado e ao acolhimento. A deputada afirma que seu mandato recebe demandas relacionadas a diferentes formas de violência e sofrimento e que busca atuar tanto nos enfrentamentos quanto no atendimento às pessoas que procuram o gabinete.
“Eu acho que quem tem capacidade de fazer isso são as mulheres”, afirmou, ao defender uma política que tenha um olhar atento para a dimensão do cuidado.
Essa perspectiva, segundo ela, não significa abrir mão de firmeza. Camila afirma que o mandato pode ser duro e firme quando necessário, mas também deve ter espaço para acolher as dores da população.
A própria relação entre emoção e política apareceu durante a entrevista. Ao lembrar um episódio em que foi questionada por se emocionar durante um discurso, Camila afirmou que não considera o choro incompatível com a atuação política.
“Eu não tenho medo do choro, porque a política que eu defendo é a política que o choro tem espaço, é a política do acolhimento”, declarou.
Cobrança maior sobre as mulheres
Camila também falou sobre a cobrança que considera maior sobre mulheres que ocupam cargos políticos. Segundo ela, existe uma pressão para que as parlamentares estejam sempre preparadas para provar sua capacidade e, ao mesmo tempo, tenham seu comportamento avaliado de maneira diferente do que ocorre com os homens.
Ela afirma que costuma estudar antecipadamente as pautas que serão discutidas no plenário, ler projetos e pareceres e pesquisar os temas antes das sessões.
“Os homens estão autorizados a falar um monte de besteira e na política falam todos os dias, mas nós mulheres não”, afirmou.
Na avaliação da deputada, a cobrança também aparece quando uma mulher demonstra emoções. Se se altera, pode ser considerada desequilibrada; se chora, pode ser chamada de emocional. Para Camila, esse julgamento também faz parte dos obstáculos enfrentados pelas mulheres para ocupar e permanecer nesses espaços.
Direitos humanos como prioridade
Questionada sobre as prioridades para um eventual próximo mandato, Camila colocou a defesa dos direitos humanos no centro da atuação. Atualmente, ela preside a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos da Assembleia e afirma que a área envolve demandas relacionadas às mulheres, população negra, pessoas LGBTQIAPN+, infância, juventude, idosos e pessoas com deficiência.
A candidata também apontou o meio ambiente como uma área que pretende manter entre suas prioridades e destacou a necessidade de ampliar as políticas públicas voltadas às mulheres vítimas de violência.
Segundo Camila, o Espírito Santo mantém apenas um abrigo para mulheres em situação de violência e ainda precisa avançar na criação de políticas que permitam que elas rompam com o ciclo de violência. Entre as propostas que pretende continuar defendendo está o chamado Aluguel Maria da Penha, projeto que, de acordo com ela, está parado na Assembleia e busca garantir apoio para que mulheres possam deixar situações de violência.
“Não abro mão do que eu defendo”
Na entrevista, Camila também falou sobre a necessidade de articulação dentro do Legislativo. Para ela, dialogar com parlamentares de diferentes posições políticas faz parte do trabalho de uma deputada, especialmente quando o objetivo é aprovar projetos e garantir direitos.
Ao mesmo tempo, ela afirma que existem limites para as negociações.
“Eu não abro mão do que eu defendo. Assim, dos meus princípios, da minha coerência e da minha ética”, afirmou.
Segundo Camila, a articulação não significa abrir mão de convicções, mas construir diálogo para que propostas possam avançar. Ela afirma que costuma procurar os demais deputados para apresentar projetos e buscar apoio para sua aprovação.
Conselho para quem quer entrar na política
Ao final da entrevista, Camila deixou um recado para meninas e mulheres que pensam em entrar na política, mas ainda têm receio de ocupar esses espaços.
“Persistam no sonho de vocês. É possível ocupar todos os espaços”, afirmou.
Para a candidata, a chegada de novas mulheres à política pode contribuir para transformar as instituições e ampliar as condições de igualdade entre homens e mulheres. Ela também destacou o papel das mulheres que vieram antes e abriram caminhos para que outras pudessem ocupar esses espaços.
“Eu espero estar contribuindo para pavimentar também o caminho para que novas gerações estejam em condições melhores do que a gente”, disse.
A entrevista com Camila Valadão inaugura o “Poder Delas”, série do VIXFeed dedicada a ouvir mulheres sobre suas trajetórias e os desafios de ocupar espaços de decisão.

Os principais eventos do ES toda semana no seu e-mail, totalmente grátis.





