Atualizado em 09/06/2026 – 17:14
Por Wing Costa
Entre o silêncio e a escuta: por que devemos prestar cada vez mais atenção na saúde emocional da infância?
Uma criança raramente diz: “estou ansiosa” ou “estou deprimida”, em muitos casos, ela sequer possui repertório emocional para compreender o sofrimento que sente. Em vez disso, esse sofrimento pode surgir como irritação, isolamento, dificuldades na escola, mudanças bruscas de comportamento, medos persistentes, problemas de sono ou crises de choro aparentemente sem motivo.
A pergunta que mobiliza pesquisadores, educadores, profissionais de saúde e famílias é simples: o que acontece quando uma criança sente algo que ainda não consegue nomear?
Essa questão ganha relevância em um momento em que os indicadores de saúde mental infantojuvenil acendem alertas no Brasil e no mundo.
Um cenário que preocupa
A Organização Mundial da Saúde estima que um em cada sete adolescentes entre 10 e 19 anos convive com algum transtorno mental, sendo ansiedade, depressão e transtornos comportamentais algumas das condições mais frequentes. A OMS também alerta que muitos desses quadros permanecem sem diagnóstico ou tratamento adequado.
No Brasil, os dados mais recentes da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), divulgada pelo IBGE em 2026, revelam que 30% dos adolescentes afirmam sentir tristeza sempre ou na maior parte do tempo, proporção semelhante relata já ter sentido vontade de se machucar. 26,1% dos estudantes disseram sentir constantemente que “ninguém se preocupa” com eles. e 18,5% afirmam pensar que “a vida não vale a pena ser vivida”.
No Espírito Santo, estudos desenvolvidos por pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo identificaram um aumento de 51,85% na demanda por atendimento em um Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSi) ao longo de seus dez primeiros anos de funcionamento.
Os dados podem indicar uma transformação social: cada vez mais famílias, escolas e serviços de saúde se deparam com crianças e adolescentes em sofrimento psíquico. Embora esses números se concentrem na adolescência, especialistas destacam que os processos emocionais que se manifestam nessa fase frequentemente têm raízes na infância. O problema é que a infância nem sempre encontra palavras para explicar aquilo que sente.
A pesquisadora brasileira Sônia Kramer argumenta que a infância deve ser compreendida como uma experiência social e cultural complexa, na qual crianças produzem sentidos sobre o mundo e sobre si mesmas. A partir do demonstrado pelo psicólogo Lev Vygotsky, emoções e linguagem se desenvolvem em estreita relação. O aprendizado e compreensão de nossos sentimentos também acontece por meio das narrativas, das conversas e dos símbolos que a cultura oferece.
Uma fera para falar do que não tem nome
Durante muito tempo, os livros infantis foram vistos principalmente como ferramentas de ensino ou entretenimento.
Hoje, pesquisadores da educação e da literatura infantil defendem um papel mais amplo: o da literatura como espaço de elaboração simbólica da experiência humana.
Quando uma criança encontra numa história personagens que sentem medo, tristeza, raiva ou confusão, ela passa a reconhecer emoções que muitas vezes ainda não consegue descrever.
A literatura não substitui acompanhamento psicológico, nem pretende oferecer respostas terapêuticas. Mas cria algo igualmente importante: um espaço seguro para imaginar, identificar, perguntar e conversar.
O educador Antonio Candido defendia que a literatura é um direito humano porque amplia nossa capacidade de compreender a nós mesmos e aos outros, é possível imaginar que na infância, essa função se torna ainda mais relevante.
É nesse contexto que surge “Fera Querida”, livro ilustrado que será lançado em Vitória no dia 14 de junho.
A obra apresenta o encontro entre uma criança e uma criatura estranha, intensa e impossível de ignorar. A fera surge sem aviso, altera sentimentos e transforma a relação da personagem com o mundo.
Sem apresentar diagnósticos ou respostas prontas, a narrativa utiliza a metáfora para abordar experiências emocionais complexas e convidar leitores de diferentes idades a refletirem sobre aquilo que sentimos quando ainda não encontramos palavras para explicar.
“O livro “Fera Querida” propõe uma conversa sobre escuta. Os transtornos em crianças se apresentam de forma muito sorrateira, então falar sobre isso com pais e pessoas que cuidam e convivem com crianças auxilia a reconhecer padrões”, explica a desenhista do livro, Juno Coutinho.
De acordo com Juno, os desenhos foram pensandos de forma a deixar em aberto a interpretação do que é a fera da obra. “É um livro aberto para trazer a tona o debate, para possibilitar conversas. Para que a criança lendo ou ouvindo aquela história consiga reconhecer essa fera como alguma coisa da vida dela e a pessoa adulta ou responsável consiga acessar esse sentimento sem que precise fazer muitas perguntas”, sugere a artista.

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