Atualizado em 27/02/2026 – 15:35
Eu tenho pavor de aranha. Aliás, de qualquer coisa que tenha mais de quatro patas. Mas a gente sabe, lá no fundo, que aranha é fácil de resolver: seja tentando tirá-la de onde está, ignorando sua existência ou com um grito de socorro. O problema são os outros medos. Aqueles que não têm bicho, mas têm garras.
Um desses medos que carrego é o de ser quebrada outra vez. Explico: a gente passa um tempão catando os próprios cacos no chão depois de um término ruim. Tem relação que não termina, te demole. Você sai dela destroçado, sem forças nem para levantar. E aí vem aquele trabalho de formiguinha, que é colar pedacinho por pedacinho, se reconstruir até sentir que o castelo está de pé de novo.
E, olha, é uma função danada ficar inteiro, se recompor, sabe? E, justamente, por reconhecer o peso dessa tarefa, quando alguém novo bate à porta, dificilmente a gente quer abrir. Até arriscamos olhar pelo buraco da fechadura, mas o medo grotesco de sermos quebrados nos faz pensar: “ih, mais um para me fazer catar os cacos novamente”.
Acontece que a pessoa que chegou agora na sua vida não tem nada a ver com o entulho que outra deixou. Ela é outra história, outra narrativa, outra energia, e você também não é mais aquele alguém que foi dilacerado.
Se a gente se protege demais, a gente para de viver. E a vida é se entregar. Pular do penhasco dá frio na barriga. Nadar onde não dá pé dá uma agonia danada. Mas qual é a alternativa? Ficar na areia olhando o mar passar?
Ninguém gosta de sofrer, ninguém acorda querendo recomeçar do zero. Dói, eu sei. Mas a vida segue, e ela segue melhor quando a gente se permite. Com medo mesmo, com o pé atrás, com aquela torcida de nariz que a gente dá para o começo incerto de uma relação, porém, com a sútil confiança de que tudo pode dar certo.
Se apareceu alguém legal, não use o seu passado como escudo, mas como aprendizado. Alguém pode querer derrubar o seu castelo, é claro. Mas também tem quem possa te ajudar a erguer um ainda maior, e isso a gente só descobre quando o medo de ser quebrado se torna menor do que a vontade de viver um amor extraordinário.

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