Não sou muito boa em ficar triste. Isso vem desde pequena. Em algum momento eu achei que ficar triste era coisa de mulherzinha, e que era errado ser mulherzinha. Achei que eu não podia ter medo e que se eu não fosse alegre e corajosa eu era errada.
Mas eu tinha raiva, e a raiva era um sentimento muito confortável pra existir. Sempre incontornável, sempre forte, incontrolável e até sorridente. Demonstrar tristeza eu não podia, mas a raiva vinha brilhante. Batia em um, batia em outro, espumava e existia altiva aos seis anos de idade.
Não tenho memória de alguém dizer “não fica com raiva”, lembro de dizerem que eu não podia bater nos outros. Minha raiva foi crescendo comigo, como um lugar de conforto, um sentimento bonito que me rendia grandes feitos: um livro aqui, uma amiga ali. Compartilhar a raiva rende sempre um bom encontro.
A tristeza, no entanto, era difícil. Eu não a alcanço há tanto tempo. Um dia eu conheci a Lívia, e ela me disse que não sabia ficar com raiva, só sabia ficar triste. Ali eu encontrei um espelho. Entendi que eu era o contrário, não sabia ficar triste, só com raiva.
Esses dias a Helena (8 anos) me perguntou o que significava amadurecer. Eu disse que era igual fruta, que primeiro é verde e depois vai amadurecendo e a gente pode comer. Ela respondeu que não era uma comida, e, portanto, não tinha entendido o que era amadurecer. Eu disse que era ir sendo mais a gente, dentro do nosso potencial, como a fruta que fica melhor quando madura.
Acho que não foi uma boa explicação, então venho pensando em como explicar para Helena o que é amadurecer. Acho que saber ficar triste tem sido um bom sintoma de amadurecimento. Como Lívia amadurece sabendo ficar com raiva.
Talvez amadurecer seja aprender a sentir direito as coisas que a gente sente, e ir lidando com todas elas. Hoje eu estava frustrada e consegui entender que era isso. Eu não estava com raiva, nem triste. Eu estava frustrada. Depois lembrei de uma tristeza muito adiada.
Fiquei triste porque quando eu era criança as outras crianças me xingavam e eu não gostava. Na época eu não podia ficar triste, só com raiva. E aí bater não adiantava, continuavam, e a raiva crescia, e continuavam, e a raiva crescia. Mas eu era forte e corajosa e não abaixava a cabeça para ninguém.
E me xingavam só porque meu cabelo era grande e armado. E porque eu era inteligente e usava óculos. Então hoje eu fiquei triste porque as crianças eram racistas e chorar embaça os óculos.
Hoje eu chorei uma tristeza com mais de trinta anos de idade. Porque eu passei uma semana vendo outras crianças tendo a minha tristeza, igualzinha. E elas choravam, elas pediam. E eu via. Sendo adulta defendi todas as crianças parecidas comigo, como meus adultos não defenderam porque não sabiam (eu era sempre alegre).
Então hoje eu chorei uma tristeza com trinta anos de idade porque eu amadureci e madura posso sentir tudo que eu sinto. Independente de quando, eu agora sei que meu sentimento é meu. Acho que é isso, amadurecer. Acho, Helena, que quando a gente amadurece a gente vai dando conta de si. E acho que amadurecer é um verbo que se conjuga no gerúndio.

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