Atualizado em 01/07/2026 – 09:03
Gastronomia, artesanato, vivências e atrações culturais fazem parte da programação da III Feira e Exposição das Mulheres Quilombolas, que acontece na praça Costa Pereira, no Centro de Vitória, nesta sexta-feira (3) e sábado (4). A programação contará com 120 expositoras de 36 comunidades quilombolas do Espírito Santo, mostrando a forte presença dessas comunidades tradicionais no estado.
A realização é do Julho das Pretas e do Coletivo de Mulheres Quilombolas Raízes do Sapê-Espírito Santo-Brasil, que reúne mulheres quilombolas de diferentes comunidades que se uniram para realizar ações e incidir sobre as políticas públicas de fortalecimento de seus territórios.
Algumas das riquezas gastronômicas que serão vendidas pelas expositoras são o óleo de dendê, farinha de tapioca e beiju. Este último é um alimento a base de mandioca produzido desde o século XIX por quilombolas de comunidades do Sapê do Norte, que abrange os municípios de São Mateus e Conceição da Barra. Também haverá produtos agrícolas, como aipim e abacaxi, além de peças artesanais, como bolsas, bijuterias, objetos de decoração e as feitas com fibra de banana.
Josiléia dos Santos do Nascimento, uma das lideranças da comunidade quilombola São Cristóvão, em São Mateus, no Norte do Espírito Santo, afirma que o evento busca a valorização da atuação das matriarcas quilombolas e o fortalecimento dos territórios, além de divulgar aquilo que é produzido nas comunidades com o protagonismo das mulheres quilombolas nos saberes tradicionais.
Os produtos estarão à venda durante todo o evento. No dia 3, que será na sexta-feira, a Feira acontecerá das 9h às 20h. A mesa de abertura será às 13h, com a presença de autoridades, parceiros e quilombolas. Às 18h haverá intervenção cultural com tambores, seguida de sessão de cineclube em parceria com o cineclube El Caracol.
A obra a ser exibida é Cartografia do Rio Angelim: memórias e direitos quilombolas. O documentário traz as memórias, saberes e afazeres ligados à ancestralidade do Rio Angelim, afluente da Bacia Hidrográfica do Rio Itaúnas. O rio faz parte da história de comunidades de Conceição da Barra e suas memórias estão ligadas ao passado escravagista, às lutas contra o latifúndio da monocultura de cana de açúcar e eucalipto e aos usos ostensivos de agentes poluentes nesse rio.
Após a exibição do documentário haverá debate com a Doutora em Educação e professora quilombola Olindina Cirilo Nascimento Serafim; Beatriz Lindemberg, do Instituto Marlim Azul; e o integrante do cineclube El Caracol, Vitor Taveira. A programação do dia 4 começa com uma mística às 9h, seguida da vivência “A cura vem da natureza: saúde popular cuidado com a vida”, que abordará os conhecimentos tradicionais de cura, com Gessi Cassiano, uma das grandes referências da luta do Sapê do Norte e do Quilombo do Linharinho, em Conceição da Barra, e a agricultora Sanuza Motta.
Também no sábado, ao meio-dia, acontecerá a vivência “Educação popular nosso jeito de educar”, com Olindina Cirilo Nascimento Serafim e os professores da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Erineu Timm Foerste, Marina Rodrigues Miranda e Gerda Margit Schütz Foerst. Uma nova vivência, dessa vez com o tema “Racismo ambiental, como combatê-lo?”, será realizada às 15h, tendo como debatedores a subsecretária de Ações Socioeconômicas e Participação Social da Secretaria Estadual de Recuperação do Rio Doce, Juliane de Araújo Barroso; e Flávia Santos, uma das organizadoras da Feira e liderança da comunidade quilombola Angelim II.
Defesa dos territórios quilombolas
A Feira, destaca Josiléia vem dizer que as mulheres quilombolas “estão e resistem nos territórios pela permanência do bem viver, por educação, saúde, alimento, sustentabilidade dos saberes ancestrais, por meio da economia criativa e solidária”. A escolha por realizar o evento na praça Costa Pereira, segundo Josélia, se deu por ser o lugar um dos pontos de começo na história negra no Espírito Santo, já que parte dos escravizados chegaram no Porto de Vitória.
A líder quilombola aponta, ainda, que é na Capital que se dá as mobilizações por políticas públicas, inclusive as de garantia da posse de terra aos quilombolas. “Queremos terra porque vivemos e sobrevivemos desse espaço”, enfatiza.
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dos 78 municípios capixabas, 26 têm população quilombola, totalizando 15,6 mil pessoas. Além das cidades mencionadas, também há quilombolas em Alegre, Divino de São Lourenço, Fundão, Guaçuí, Guarapari, Iconha, Itapemirim, Jaguaré, Jerônimo Monteiro, Laranja da Terra, Linhares, Marataízes, Montanha, Muniz Freire, Muqui, Pedro Canário, Presidente Kennedy, Santa Teresa, Sooretama, Vargem Alta e Viana. O município de menor número de quilombolas é Santa Teresa, com apenas uma pessoa. O com maior quantidade é São Mateus, com 6,2 mil.
O presidente da Associação de moradores do Centro de Vitória (Amacentro), Walace Bonicenha, aponta que o Centro sempre foi um espaço de encontro entre diferentes culturas, saberes e modos de vida. “A presença das mulheres quilombolas fortalece essa vocação de diversidade e valorização da nossa identidade capixaba”, destaca.
O líder comunitário acrescenta que “a feira aproxima a cidade do campo, valoriza quem produz alimentos, preserva tradições e contribui para o desenvolvimento econômico e cultural do Espírito Santo. Afinal, como nos ensina a sabedoria popular, ‘se o campo não planta, a cidade não janta’”.
A Feira tem apoio da Defensoria Pública do Espírito Santo (DPES), Prefeitura de Vitória, Associação de Moradores do Centro (Amacentro), Comissão Quilombola do Sapê do Norte, Fase, Associação Cultura Capixaba (Cuca), Agência de Desenvolvimento das Micro e Pequenas Empresas e do Empreendedorismo (Aderes), Secretaria de Mulheres do Estado do Espírito Santo e Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).
Serviço
III Feira e Exposição das Mulheres Quilombolas do Espírito Santo Feira e exposição
Primeiro dia:
Data: 03 de julho
Horário: das 9h às 20h
Programação: exposição da culinária, agricultura familiar, artesanato e artes; intervenção cultural com tambores e sessão de cineclube.
Segundo dia:
Data: 04 de julho
Horário: das 9h às 18h
Programação: exposição da culinária, agricultura familiar, artesanato e artes; vivências e atrações culturais

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