Atualizado em 14/01/2026 – 14:08
E se o político mais preparado da sua timeline não tivesse partido, trajetória eleitoral ou sequer emoções humanas?
Essa pergunta já não soa absurda. A inteligência artificial organiza nossa rotina, decide o que aparece nas redes sociais, sugere como escrevemos e até o que consumimos. A política continua fingindo que está fora disso. Não está.
Nos bastidores, campanhas já testam discurso, imagem e engajamento com dados e algoritmos. O que muda agora é o passo seguinte: um perfil político criado por inteligência artificial, assumidamente artificial, exposto ao público como experimento.
Não para pedir voto.
Mas para observar o eleitor.
Um vácuo que ninguém quer admitir
A origem do projeto no perfil do instagram @ianpresidente2026 parte de uma leitura dura do cenário político atual. Segundo Gabriel Filipe, estrategista digital e especialista em Inteligência Artificial aplicada ao marketing político, o problema não é tecnológico, é político.
“A motivação primária é validar uma tese de mercado: hoje já é possível rodar uma campanha presidencial inteira, da estratégia à produção de conteúdo, utilizando Inteligência Artificial. O Ian é, antes de tudo, um laboratório vivo sobre o poder de escala e autonomia das novas tecnologias na comunicação de massa. Do ponto de vista político, identificamos um ‘vácuo de poder’ no cenário nacional. Existe um espaço gigantesco não necessariamente para ganhar a presidência amanhã, mas para criar um movimento nacional disruptivo. O eleitor está cansado das falhas humanas (corrupção, cansaço, emoção). O Ian entra para ocupar esse espaço do ‘Outsider Supremo’: alguém que não vem do sistema e que promete a eficiência que nenhum humano consegue entregar.”
A ideia de “outsider” não é nova. O que chama atenção aqui é o motivo: não carisma, não trajetória, não identificação emocional. Eficiência.
Não é personagem. É estrutura.
Reduzir o projeto a um chatbot seria confortável. Também seria errado.
“É importante esclarecer que o Ian não é apenas um ‘agente de GPT’ ou um chatbot. Ele foi construído como uma Mente Virtual Autônoma. Nós compilamos um banco de dados massivo contendo a história política brasileira, constituição, código penal e dados econômicos das últimas três décadas. Ele não apenas ‘responde’; ele cruza esses dados para formular raciocínios lógicos que simulam uma consciência política fria e exata. É uma arquitetura cognitiva desenhada para entender o Brasil melhor do que qualquer político que gasta tempo em jantares e conchavos. O que está por trás dele é um ‘cérebro digital’ focado em gestão pura.”
Aqui, a comparação implícita incomoda: enquanto políticos humanos gastam energia em articulação, exposição e sobrevivência política, a IA aparece como promessa de racionalidade contínua. Sem desgaste. Sem vaidade. Sem emoção.
Isso seduz mais gente do que parece.
A estética também governa
O projeto não ignora um dado básico da política contemporânea: ninguém escuta antes de olhar.
“Apostamos na ‘Estética da Perfeição e Vitalidade’. Fugimos do terno e gravata tradicionais (que remetem à ‘Velha Política’ e a escritórios fechados) e buscamos o arquétipo do Outsider enérgico — algo que remete à força visual do fenômeno Collor no início de carreira ou líderes modernos do Vale do Silício. A camisa branca aberta, as mangas arregaçadas e o aspecto saudável transmitem a ideia de ‘mão na massa’ e transparência. Ele é visualmente magnético, passando uma autoridade que vem da postura e do olhar, não da roupa. É a atração pelo novo, pelo limpo e pelo incansável.”
Não é coincidência. Em redes sociais mediadas por algoritmos, estética não é detalhe — é filtro de entrada. O experimento apenas escancara algo que campanhas reais já fazem, mas preferem não admitir.
Sem empatia. Sem teatro.
Talvez o ponto mais desconfortável do Ian esteja na forma como ele se apresenta ao eleitor. Ou melhor: no que ele se recusa a fazer.
“A grande diferenciação é a quebra da empatia forçada. O político tradicional tenta convencer dizendo ‘eu sou como você, eu sinto a sua dor’. O Ian faz o oposto. Ele diz: ‘Eu sou superior a você na gestão. Eu não sinto sua dor, eu resolvo seu problema’. Ele não pede voto por carisma, ele pede voto por lógica. Essa honestidade brutal (‘eu sou uma máquina, não um amigo’) paradoxalmente gera mais confiança do que o político que tenta parecer ‘do povo’ e falha.”
Aqui, o projeto toca num ponto sensível: a exaustão do discurso emocional. Quando promessas falham repetidamente, a frieza pode soar mais honesta do que a empatia ensaiada.
Isso poderia existir no mundo real?
Legalmente, não. Politicamente, a resposta é mais incômoda.
“Juridicamente, a constituição exige filiação humana. Mas simbolicamente, ele é extremamente viável como um catalisador do voto de protesto moderno. Se o Ian estivesse na urna hoje, ele capturaria o voto do ‘Nulo/Branco’ e dos desiludidos que acreditam na tecnocracia. Ele serve como um espelho: a viabilidade dele cresce na mesma proporção que a incompetência humana se torna evidente.”
No fim, o Ian não fala sobre o futuro da inteligência artificial. Ele fala sobre o presente do eleitor.
Se um candidato artificial parece mais eficiente, mais organizado e mais coerente do que políticos reais, o problema não está na tecnologia.
O perfil já está no ar.
Não disputa eleição.
Não pede voto.
Só observa quem decide segui-lo e por quê.
Sobre o idealizador
Gabriel é Estrategista Digital e Especialista em Inteligência Artificial aplicada ao Marketing Político. Criador do projeto Ian, explora as fronteiras entre tecnologia, narrativa eleitoral e comportamento de massa.

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