Atualizado em 24/11/2025 – 14:37
O Brasil é estruturado sobre uma grande desigualdade social e regional, recortando o Nordeste como o epicentro onde essa disparidade se manifesta como discriminação cultural permanente.
O filme brasileiro O Agente Secreto, atualmente em cartaz, expõe essa ferida aberta. A nordestinofobia, essa engrenagem antiga para manter hierarquias sociais, aparece ali sem pudor: estereótipos depreciativos, ridicularização do sotaque, caricaturas previsíveis e com escassas representações positivas na mídia nacional. A obra escancara aquilo que nossa elite econômica deseducada insiste em não ver: que o preconceito contra o Nordeste não é folclore, é projeto.
Ao espectador atento, é possível notar a evidência de que a Justiça e o Poder Político funcionam como garantidores das desigualdades, afinal, são reflexos da hegemonia cultural que nos deprime.
O final do filme — que, de certa forma, não me surpreendeu – trouxe a profecia nordestina autocumprida, me fazendo pensar sobre décadas de construção de segregações. Isso explica por que muitos do Sul do Brasil buscam a separação da pátria amada: um misto de ignorância histórica e racismo.
É bom ressaltar: o Nordeste não é a praia que você frequenta e fotografa para as redes sociais nas suas férias, nem o Carnaval imperdível que magnetiza sua vida em fevereiro. O Nordeste é Jaqueline de Jesus (1), que liderou uma equipe que sequenciou o genoma do coronavírus em apenas 48 horas (ajudando a salvar a sua vida na pandemia); é o Instituto do Cérebro (2), sediado no Rio Grande do Norte, centro de referência mundial em neurociência (que ajuda a entender como funcionam suas questionáveis razões); é Rui Barbosa (3), um dos maiores juristas deste país (que você cita equivocadamente naquele processo para não pagar os direitos de sua empregada doméstica); é Maria Felipa (4), liderança quilombola baiana contra o domínio colonial (que ajudou a garantir que hoje você não tenha muitos dos privilégios da branquitude de ontem); é Luiz Gama (5), líder abolicionista com atuação jurídica de resistência (que conseguiu extrair das frestas do direito burguês a liberdade de escravizados).
Que tenhamos acordo: a discriminação contra o Nordeste não é acidental, mas sim forjada em bases culturais de uma dominação de classe que opera também na construção de pensamentos. Não é por acaso que vemos tantos repetidores de frases de (d)efeito estigmatizantes, vulgares e antipatrióticas proferidas em conversas de brasileiros naquela sua cafeteria favorita. A discriminação contra o nordestino é muito mais do que os signos depreciativos nas piadas irrisíveis em cada esquina da cidade: ela é engrenagem moendo pensamentos e pasteurizando, na saída da máquina, discursos hostis de classe.
Recupero aqui Belchior, ele próprio um migrante cearense, que liricamente traduziu a essência dessa violência simbólica ao entoar o verso “Nordeste é uma ficção! Nordeste nunca houve!” na música “Conheço o Meu Lugar” (6). Essa forte negação reflete a forma como aqueles que se veem como elite cultural e política do país tentam reduzir a região a um não-lugar, um mero apêndice, ou a uma “nação de condenados”. Essa visão é espelhada nas alusões que o filme traz, onde a vida do pobre e nordestino é tratada com tamanha indiferença pelas classes dominantes que se torna descartável. É uma história que, ao final (infeliz), entrega o apagamento. A nordestinofobia, portanto, não é um simples preconceito regional: é a justificativa ideológica para a estrutura que busca condenar milhões a um destino de invisibilidade e privação de direitos, assegurando a permanência de privilégios. E o filme, de forma inquietante, retrata a vida dessas pessoas como algo facilmente neutralizável, apenas confirmando a estrutura que insiste em condená-los ao “não”.
Romper com a nordestinofobia exige coragem política, disposição para confrontar privilégios e um acordo coletivo em favor da justiça social. Exige admitir que essa violência simbólica sustenta desigualdades concretas. Que se entenda: não há futuro democrático possível enquanto o Brasil continuar fingindo que certos sotaques e corpos valem menos.
O Nordeste não é periferia cultural — é centro de resistência, criação e conhecimento. E o país só será digno de si mesmo quando enfrentar, a palo seco (7), a ficção que o oprime desde sempre.
Referências no texto:
[1]. https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-da-saude/tecnologia-que-sequenciou-coronavirus-em-48-horas-permitira-monitorar-epidemia-em-tempo-real/
- https://neuro.ufrn.br/
- https://www.gov.br/casaruibarbosa/pt-br
- https://www.gov.br/palmares/pt-br/assuntos/noticias/maria-felipa-de-oliveira
- www.institutoluizgama.org.br
- Canção Conheço o Meu Lugar, composta por Belchior e lançada em 1979.
- Canção A Palo Seco, composta por Belchior e lançada em 1973.

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