Atualizado em 29/06/2026 – 16:40
O capitalismo não domina apenas pela economia ou pela ideologia. Ele também domina pela estética. O poder tem uniforme: o bom terno, a gravata harmonizada, o relógio de luxo e o restaurante afamado no qual o guardanapo se desmancha na água asséptica, assim como se dissolvem cotidianamente as ilusões do proletariado. O escritório ou gabinete envidraçados, o vocabulário técnico e tantos outros elementos de controle funcionam como signos de legitimidade, enquanto a estética das classes populares é frequentemente convertida em suspeição. E aqui temos a produção de um consenso que orienta comportamentos e conforma subjetividades, passando inevitavelmente por esta decoração de superfície.
Imagine este contraste: de um lado, um adolescente negro, de bermuda cargo, boné e tênis é imediatamente associado ao risco; por outro lado, um profissional jurídico de terno bem cortado que emite notas frias e promove o salvamento do resíduo da mais-valia da elite empresarial, operando com tecnologias sociais de vampirização da produção material da classe dominada, sendo por isso associado ao sucesso, à competência e ao dinamismo.
Estamos diante de um clássico pensamento crítico: a classe dominante transforma seu próprio estilo e comportamento em padrão universal de elegância, honestidade e civilidade. Tudo aquilo que escapa desse padrão passa a ser visto em um espaço de “não-poder”.
Voltando às passarelas da ilusão: nenhuma roupa é politicamente neutra. Sua força não está na estética em si, mas na construção ideológica que transformou as vestimentas da elite em parâmetro universal de respeitabilidade, antes mesmo de qualquer expressão de quem as usa. Já o estilo periférico comunica exatamente o oposto: não porque possua esse significado intrínseco, mas porque está amaldiçoado por uma
herança secular.
Como dito: determinadas pessoas são percebidas como naturalmente perigosas, e a roupa participa dessa construção. O tênis colorido, a tatuagem que revela suas angústias e a camisa que brilha demais compõem elementos pré-constituídos de suspeição ou de insucesso. Nos programas vespertinos policialescos, é preciso ver e encaixar aquela pessoa em algum espaço para ser vista e julgada, quase sempre descartando sua fala e focando no “se veste como um vagabundo”.
Por outro lado, o Estado dificilmente suspeita do indivíduo que surge em seu terno de grife com notas fiscais frias no bolso, mas desconfia do adolescente que chega de chinelos para comprar pão. É a seletividade estética do sistema penal.
Saibamos, amigos e amigas: o sistema capitalista produz duas decorações: a estética da autoridade e a estética da periculosidade. Nenhuma delas é natural. Ambas são construções ideológicas, como podemos extrair de Gramsci.
Quando um banco quebra a economia de milhares de famílias, fala-se em “reestruturação financeira”, operada por grandes escritórios de advocacia. Quando um adolescente furta um celular, fala-se em “ameaça à ordem pública”. A blindagem estética do poder passa pelo terno e gravata impermeáveis,
como um capital simbólico. A estética não elimina os atos criminosos das elites, mas reduz a suspeição social sobre seus autores. Enquanto determinados corpos precisam provar continuamente sua inocência, outros são presumidos honestos pela simples incorporação de signos estéticos socialmente valorizados e impostos. “Olha como se veste bem, que terno lindo! Nota 10 de 10!”
Vejamos: ninguém obriga o jovem advogado a usar terno. Ele o utiliza porque compreende que aquela indumentária representa atributos positivos, e não beleza (o que é beleza?). Ele que está incorporando um código cultural que comunica pertencimento a uma profissão de prestígio. A estética transforma-se em
argumento, e Gramsci demonstrou que a classe dominante conquista o consenso quando seus valores passam a ser vistos como naturais.
A hegemonia está justamente aí: a dominação deixa de parecer imposição e passa a parecer escolha. Antes de controlar os corpos, o capitalismo controla os olhares. Ensina-nos quem merece confiança antes mesmo da conduta, quem deve ser revistado antes mesmo de uma justificativa jurídica. A decoração da elite não oculta apenas o corpo: oculta a própria estrutura de classe. A seletividade penal começa muito antes da tipificação penal. Ela nasce nas roupas, amadurece na ideologia e se concretiza na atuação das instituições.
O “passeio completo” (temos um dress code!) funciona como uma credencial simbólica – não por possuir qualquer poder metafísico, mas porque a sociedade foi educada para reconhecê-lo como sinal de meritocracia, reduzindo significativamente a predisposição social para suspeitar.
A criminologia crítica ensina que o sistema penal não seleciona condutas apenas pela gravidade do dano. Seleciona sujeitos. Essa seleção começa muito antes do Código Penal. Ela começa na aparência. A estética periférica converte-se em linguagem de perigo. A estética burguesa converte-se em linguagem de
confiança.
Não existem “roupas criminosas” ou “roupas bonitas”, mas existem classes sociais às quais determinadas vestimentas passaram a representar. É nesse momento que estética e ideologia deixam de ser temas separados e passam a integrar o mesmo mecanismo de dominação.
Para Bourdieu, a classe dominante transforma seus próprios hábitos em padrão universal de bom gosto. Sua linguagem torna-se linguagem culta. Sua comida torna-se gastronomia. Seu lazer torna-se cultura. Sua roupa torna-se padrão inconteste de beleza. Tudo aquilo que escapa desse universo passa a parecer vulgar e é afastado do poder e dos espaços decisórios. A roupa torna-se um mecanismo silencioso de classificação social. O sistema penal apenas institucionaliza uma distinção que já havia sido construída culturalmente.
O capitalismo não produz apenas desigualdade econômica. Produz desigualdade de credibilidade. Uns precisam provar diariamente que são honestos. Outros apenas vestem um terno. Enquanto a estética da respeitabilidade continuar funcionando como blindagem simbólica das elites e a estética da periferia permanecer convertida em indício permanente de suspeição, o senso comum hegemonizado pela classe dominante seguirá operando não apenas sobre os meios de produção, mas também sobre os modos de ver, julgar e confiar. Antes de controlar os corpos pela força dos fuzis, o capital controla os olhares pela
distribuição assimétrica de prestígio.
Nós, “engenheiros maltrapilhos” da disputa contra-hegemônica e que habitamos as trincheiras dessa sociedade marcadamente desigual, continuamos desagradando os olhares higienistas da corte, mas – cientes da nossa missão política – seguimos “dentro em linha reta, tendo a palavra certa pra Doutor não reclamar”.
Em tempo: eu uso terno.
Até o próximo artigo!
Referências no texto:
Sobre o conceito de hegemonia e outros, ver: GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Volumes 1 e 3: Edição de Carlos Nelson Coutinho com a colaboração de Marco Aurélio Nogueira e Luiz Sérgio Henriques. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.
Sobre a sustentação teórica da “decoração de superfície”, onde o autor destrincha o uso de indumentárias e signos visuais na encenação da autoridade e do prestígio, ver: GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana. Tradução de Maria Célia Santos Raposo. 20. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.
Sobre a extração da mais-valia, ver: MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: O processo de produção do capital. Tradução de Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013.
Sobre os mecanismos de produção do consenso e a diluição da coerção na hegemonia cultural, ver: GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Vol. 3. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
Sobre o conceito de capital simbólico e a conversão de signos estéticos em instrumentos de dominação social, ver: BOURDIEU, Pierre. A distinção: crítica social do julgamento. Porto Alegre: Zouk, 2007.
Sobre a inversão analítica que desloca o foco da conduta para a seleção do sujeito (processos de rotulação e criminalização secundária sob a égide do capital), ver: BARATTA, Alessandro. Criminologia crítica e crítica do direito penal. Rio de Janeiro: Revan, 2002.
Sobre a música que fecha o artigo, ouvir: “Avohai”, obra do cantor e compositor paraibano Zé Ramalho.

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