Atualizado em 16/07/2026 – 15:39
Ergo a mão e aceno para Wilson na Praça Costa Pereira. Ele vem dentro de um carro que eu espero que pare na faixa para que eu atravesse. Pena que quando chega perto já não é Wilson no carro.
Minha mão desce meio sem jeito no meio do tchau referido ao ex-Wilson que não recebeu o cumprimento. Do outro lado do carro, Paulinha me olha, rindo gostosamente por ter visto a cena de camarote.
Atravesso a rua e anuncio a Paulinha que estou com vergonha. “Achei que conhecia a pessoa, mas me confundi”. Ela ri muito, diz que só eu mesmo. Duvido. Retruco que todo mundo se confunde na rua. Ela concorda discordando. Acredita que eu seja simpática demais.
A mim, com mais vergonha ainda, me resta apontar que há um caroço de feijão em seu dente. Assim, com feijão e risada temos alguma empatia, uma vergonha em comum. Podemos rir juntas de igual para igual, enfim, do lado do monumento ao trabalhador.
Duas horas depois narro a Danielle a história. Ela é generosa com meu desespero. Lembra-se de que todos os dias cumprimentava no RU da Ufes o mesmo fulano. Era um colega pouco conhecido, que encontrava ocasionalmente em eventos aleatórios.
Fulano volta e meia tinha barba, volta e meia não tinha barba. Danielle estranhou da primeira vez, na roleta, quando ele demorou a devolver seu aceno. Mas ele enfim sorriu, devolveu o aceno e permaneceu sentado no mesmo lugar.
A cada três semanas mais ou menos Dani encontrava o fulano do RU, sempre muito simpático. Ora ela cumprimentava, ora ele cumprimentava. Nas primeiras vezes era sempre dela o aceno, mas aparentemente fulano simpático tomou para si a tarefa em certo ponto.
Ela chegava no restaurante e lá estava fulano do RU com sorriso e mãozinha a postos. Até que um dia, Dani encontrou o fulano original em um evento de noite e dois dias depois o fulano do RU de dia. Não tinham o mesmo cabelo.
Danielle não soube o que fazer diante da roleta. O moço tinha três dedos a mais de cabelo do que o fulano visto antes. Não era fulano, mas acenava. Talvez pensasse “olha que bonita a capixaba legal que acena”. Podia ser também que ele não lembrasse de onde a conhecia mas cumprimentasse por educação.
Ninguém vai saber. Danielle cumprimentou fulano do RU por um ano achando que era fulano original, por mais dois anos adiante sabendo que tinha se casado com o equívoco.
E eu sei que você pode estar rindo de nervoso ao se imaginar no lugar de Dani, ou no meu. Bom. É o que a gente tem pra hoje.
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