Atualizado em 24/06/2026 – 10:41
Em uma cidade cada vez mais quente, basta olhar pela janela para perceber que o verde não está distribuído igualmente entre todos os moradores. Em tempos de debates cada vez mais urgentes sobre as mudanças climáticas, as cidades voltam a expor uma verdade desconfortável: a presença de parques, praças e áreas arborizadas costuma acompanhar a renda de seus moradores. O acesso ao verde urbano, assim como tantos outros recursos da vida nas cidades, ainda é marcado pela desigualdade.
De importância inquestionável, as áreas arborizadas ajudam a amenizar os efeitos do calor nas cidades. Além da captura de carbono, as árvores reduzem a sensação térmica por meio da sombra e contribuem para a formação de microclimas mais agradáveis. Seus benefícios, porém, vão além. Menos concreto e asfalto significam maior capacidade de infiltração da água da chuva, fenômeno conhecido como “efeito esponja”, que reduz o risco de alagamentos e contribui para o equilíbrio ambiental urbano.
Entretanto, quando observamos a distribuição dessas áreas, a desigualdade salta aos olhos. Na Grande Vitória, como em tantas outras regiões metropolitanas do país, não é difícil perceber a diferença entre bairros mais valorizados, onde ruas arborizadas, parques bem cuidados e espaços de convivência fazem parte da paisagem, e regiões periféricas, onde predominam o concreto, a escassez de áreas verdes e a menor oferta de infraestrutura urbana. Historicamente marcadas por processos de ocupação mais precários e por investimentos insuficientes, essas áreas acabam enfrentando os impactos climáticos em condições muito mais desfavoráveis.
Essa distribuição desigual revela que o verde urbano envolve uma questão ambiental e social. A beleza dos espaços, o conforto térmico, a qualidade do ar e até mesmo a possibilidade de caminhar sob a sombra das árvores acabam sendo distribuídos de forma desigual entre os habitantes da cidade.
No ano em que se celebra o centenário de nascimento de Milton Santos, a obra do maior pensador da geografia brasileira permanece atual. Para ele, a segregação socioespacial não é uma consequência natural do crescimento urbano, mas o resultado de desigualdades produzidas pelo sistema econômico e pelo uso desigual do território. Em outras palavras, a cidade continua reproduzindo uma lógica em que alguns têm acesso à sombra, ao frescor e à qualidade de vida, enquanto outros convivem com o calor, o concreto e a ausência de escolhas. E, nesse cenário, até mesmo a paisagem ajuda a revelar aquilo que os números há muito denunciam: as desigualdades urbanas também têm cor e, muitas vezes, ela é verde.

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