Sobre essa pergunta, acredito que o Parangolé nasce do encontro do Hélio com o samba, com a Mangueira, com a música, portanto. O Parangolé é resultado direto desse encontro do Hélio com a música, e isso é muito importante na minha forma de me relacionar com a obra dele, especialmente nesse ponto específico do Parangolé, que envolve a cor e o movimento no ar.
VIXFeed: Você já gravou o clipe de Pelos Ares dentro do Magic Square #5, também de Oiticica, que está no Museu do Açude, no Rio de Janeiro. Como foi a experiência de transformar uma obra de arte em cenário e personagem de um clipe?
Adriana Calcanhotto: É muito interessante, porque existem muitas camadas na relação com a obra do Hélio Oiticica. Naquele momento em que a obra foi construída, foi possível compreender toda a interação da matéria orgânica do lugar específico onde ela está implantada, algo bem diferente do que se imagina quando o Hélio faz, talvez, no máximo, uma maquete da obra.
Ali, a interação com a mata, os cogumelos, as algas, os elementos que nascem, morrem, revela essa coisa viva presente na cor. Isso era muito interessante. E, ao mesmo tempo, fazer o clipe dentro de uma canção que fala de espaço, sendo também um poema de Antônio Cícero, criava muitas camadas de sentido. Foi muito interessante realizar esse clipe.
VIXFeed: A canção Parangolé Pamplona dialoga diretamente com a obra de Oiticica. Conte um pouco como foi esse processo de criação e em que momento você sentiu vontade de transformar essa referência das artes visuais em música?
Adriana Calcanhotto: Eu queria assimilar e compartilhar essa ideia do Hélio Oiticica de um Parangolé. A obra é colocar a cor em movimento no espaço. É tirar a cor da tela, da moldura, e lançá-la no espaço, em um movimento que não deve ser controlado por quem a veste. Essa é a ação que ele propõe: não controlar o movimento. Por isso a relação com o samba: enquanto se samba, a cor está ali no ar, em movimento.
Achei tudo isso muito interessante e fiquei com a ideia de fazer uma canção. Mas foi um trabalho difícil justamente para alcançar a simplicidade, assim como é simples a explicação do Parangolé Pamplona. O que existe sobre ele são poucas instruções, cinco ou seis linhas que o Hélio deixou, algo bem diferente de tudo o que ele costumava fazer, já que teorizava muito sobre a própria obra. Eu queria fazer uma canção sobre isso, para falar dessa ideia e para que fosse uma canção para usar, dançar e realizar essa performance.
VIXFeed: O Parque Cultural Casa do Governador é um espaço que une arte contemporânea e natureza. A paisagem influencia de alguma forma como você pensa a música ou a performance?
Adriana Calcanhotto: Sim, sem dúvida. Quando a obra é aberta, isso fica ainda mais evidente. No caso do Magic Square, por exemplo, é incrível perceber como existem versões em lugares diferentes: há uma aqui no Rio, outra em Inhotim, e agora esta também. São três espaços distintos, e é possível entender como o lugar interfere na obra e também é interferido por ela. Acho isso muito bacana.
Eu estive na inauguração da primeira aqui no Rio, que foi algo inesquecível, pelo encontro com Waly Salomão e com a Estação Primeira de Mangueira, ligada aos Parangolés. Agora também vai ser muito interessante participar desse novo momento.
VIXFeed: O público capixaba costuma ter uma relação muito forte com eventos ao ar livre. Que tipo de energia você espera nesse encontro?
Adriana Calcanhotto: Eu acho que essa energia do Hélio Oiticica, da cor estar no ar livre, em movimento, faz com que, quando se inaugura uma obra como essa, aconteça uma espécie de convergência. As cores passam a trocar com as cores do lugar de onde elas vêm, que é a natureza.
Existe todo o raciocínio dele, todo o esquema, a geometria, mas é no convívio com o espaço, que é a origem de tudo isso, que é a própria cor, que a obra se completa. Acho isso incrível. Estou muito animada e muito curiosa.
VIXFeed: O que você pode adiantar de como está imaginando essa conversa musical no dia 21?
Adriana Calcanhotto: Eu acho que a gente vai falar sobre os Parangolés, sobre a relação com o Hélio Oiticica.
VIXFeed: Sobre o seu processo criativo, quando você começa uma música, o que costuma vir primeiro: a melodia ou o texto?
Adriana Calcanhotto: A grande maioria das canções que eu fiz nasceu no violão. Existe uma combinação entre texto e música em que, primeiro, vem o ritmo, a levada daquele verso que está chegando, o ritmo da fala que é extraído daquele momento. Depois, a melodia vai sendo detalhada quando já existe um pouco mais de letra, e assim eu vou lapidando em facetas.
Isso é um panorama geral. Mas também tenho procurado compor sem o violão, usando progressões harmônicas que encontro na internet, batidas pensadas para fazer rima, que me levam a caminhos melódicos aos quais eu não chegaria apenas com o meu vocabulário de violão. São progressões mais novas para mim, que provocam trajetórias melódicas diferentes. Eu tenho gostado disso.
VIXFeed: Suas letras costumam transformar situações muito simples do cotidiano em poesia. De onde costuma surgir essa inspiração: da observação do mundo, da literatura ou das experiências pessoais?
Adriana Calcanhotto: É da observação do mundo, dessa relação com a poesia que trata justamente disso. O Oswald de Andrade dizia que a poesia está no beija-flor, no elevador, que a poesia já está nas coisas. As canções apenas sublimam isso, ou lançam uma pequena luz sobre o que já existe.
VIXFeed: O que você espera da inauguração?
Adriana Calcanhotto: Eu estou muito contente com esse parque. Tenho acompanhado essa movimentação e vejo que é algo com uma identidade própria, com a cara daí. Estou animada para conhecer as pessoas que estão fazendo as coisas acontecerem. Acho que vai ser muito legal.