Atualizado em 23/02/2026 – 18:56
Para um colunista de fôlego crítico, o texto precisa ser um bisturi nas mãos de um habilidoso cirurgião: deve cortar a superfície das aparências para expor a musculatura política da essência.
Sabemos que uma canção, quando legítima, é muito mais do que algumas estrofes e melodia agradável: ao alcançar seus objetivos mais viscerais, inicia uma detonação que reverbera no coração do tecido coletivo. É um verdadeiro ato político contra-hegemônico que mantém parte de sua pólvora incombusta pronta para ser deflagrada pelo ser social revolucionário. É ferramenta de denúncia que, diante de uma juventude sequiosa por sentido, estremece as estruturas de poder vocacionadas a formatar o sujeito periférico. A boa música não é refúgio para a dor: é arrancamento do silêncio e prelúdio do confronto.
A obra Alucinação, que em junho de 1976 implodiu mentes inquietas e se firmou como o hino de uma angústia materialista, representa um rasgo profundo no lirismo místico-tropical que ainda perfumava os anos 60 e 70. Foi também um disparo de grosso calibre na Bossa Nossa e sua estética de apartamento da zona nobre, onde tudo era, por decreto poético, lindo e maravilhoso. Ao substituir o deslumbre e as metáforas solares pela crueza cinzenta do asfalto, Belchior posiciona o jovem brasileiro não como um observador passivo, mas como um sujeito subalterno que deve confrontar a hegemonia urbana e política de sua época. Essa transição do sonho psicodélico para a vida real estabelece uma nova ética da denúncia, onde o sangue no jornal e a solidão metropolitana deixam de ser abstrações para se tornarem a base de uma consciência crítica sobre a opressão.
É aqui que Gramsci é recuperado: a hegemonia, como nos ensinou em seus cadernos, não se sustenta apenas pela força, mas pela combinação entre consenso e coerção.
O Estado ampliado – que abrange tanto a sociedade política (aparelhos repressivos) quanto a sociedade civil (escola, mídia, igrejas, família) – opera primeiro pela construção de consenso, isto é, pela naturalização das hierarquias sociais como se fossem inevitáveis. Quando esse consenso se fragiliza, especialmente nas periferias onde a promessa integradora falhou, emerge com maior nitidez a face coercitiva do poder: polícia, sistema penal, internação. Observemos bem: a coerção não substitui o consenso; ela se soma a ele. A hegemonia, portanto, não é apenas convencimento ou violência árida, mas a engenharia política que articula direção intelectual e moral com a possibilidade última de punir – garantindo que a ordem mantenha as pessoas “cinzas, normais”.
E aqui trago o recorte da infância e juventude, que me interessa mais. Essa ruptura musicalizada ganha permanências e ladeia o senso crítico que vocifera contra a seletividade infracional, marcante no sistema punitivo juvenil contemporâneo. Assim como Belchior desloca o olhar do sonho para a realidade visceral, Gramsci se apresenta espiritualmente e afirma que a internação de adolescentes não revela um acidente geográfico, mas um projeto de observação e controle consensualizado. A alucinação jurídica reside na crença de que a restrição da liberdade cumpre uma função puramente pedagógica, enquanto na prática o Estado opera como um aparelho de coerção destinado a esquadrinhar corpos de meninos e meninas que a economia política destas margens atlânticas tornou imprestáveis.
Essa fragmentação expõe a fratura no mapa: ao esquecer programaticamente o acesso aos direitos estruturantes, o Estado aparentemente desiste da conquista do consenso e radicaliza – reafirma sua soberania apenas pelo peso da espada no momento em que o jovem manifesta um comportamento desviante. Os meninos humilhados do parque, muitos deles narcotizados pelos encantos reais e imediatos do “movimento do tráfico”, só conseguem enxergar o que os olhos alcançam: uma ausência acinzentada, onde a sobrevivência é a única escolha possível.
Abro parênteses necessários: tal análise não se alinha a perspectivas abolicionistas, nem ignora a necessidade da responsabilização do jovem. O que se propõe aqui é um diagnóstico no qual a culpa atribuída ao adolescente não seja pensada de forma atomizada, mas como uma parte bastante diluída em uma falha estatal sistêmica – ou, a depender da lente do observador, de um acerto estratégico de controle. Responsabilizar sem integrar é apenas garrote no guilhotinado.
Notem que a história nos oferece uma coincidência homônima interessante: onde Antônio Gramsci apontou a grade da hegemonia que silencia as margens, Antônio Belchior emprestou a voz para denunciar o sangue que mancha os jornais. No diagnóstico deste artigo, a responsabilidade pelo comportamento desviante e o consequente sequestro estatal não são pontos isolados na biografia do jovem: são barbantes que o amarram em uma rede de omissões históricas.
Nos limites do programa burguês e pretendendo apenas reduzir danos, a sentença é única: para que o adolescente deixe de ser apenas um menino latino-americano perdido nos escombros do capital, o Estado precisa ter a decência de abandonar a força de quem apenas vigia e assumir a coragem de quem finalmente emancipa.
Avante!
Referências no texto:
Alucinação, álbum fundamental de Belchior, foi lançado em 1976 pela gravadora Polygram, consolidando a ruptura do artista com movimentos anteriores em direção a uma poética urbana e ácida.

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