O pior não é abrir mão de uma paixão. Acontece. A vida segue e dor de cotovelo todo mundo tem. O negócio é que só existe desilusão depois de uma ilusão. Isso acontece em qualquer área da vida. A percepção de que aquela coisa toda era uma grande ilusão, isso sim é ruim.
É o momento em que as coisas deixam de ser hipóteses, é o momento em que tudo se quebra. Não é o que eu tinha pensado. Não vai dar tudo certo. Não tem solução. As coisas na mesa, o vaso quebrado. O pé cheio de caco de vidro.
O que se há de fazer? Sentar, olhar os cacos, arrancar um por um, entender o tamanho da sangria pra depois estancar. Varrer os cacos, lavar o chão. E isso tudo sentindo dor.
Desilusão é uma palavra grave e grande que as pessoas colocam em muitas músicas pra ver se gastam. Desilusão, danço eu, dança você. Dança nada. Ninguém gosta. Desilusão é uma palavra que a gente evita demais.
A palavra tão gasta, tão gasta, que parece até bonitinha e identificável e que é culpa de uma coisa externa e enorme, nunca da gente. Mas a ilusão, senhoras e senhores, é pessoal e intransferível. Intransferível, essa palavra tão grave quanto desilusão.
A ilusão pode ser ativa ou passiva. A gente pode alimentar as fantasias e ignorar as bandeiras sem querer ou querendo, ou sem querer querendo. E todo mundo já fez dos dois jeitos.
A desilusão pode vir num rompante, com um grande aviso, mas ser completamente ignorada. Pode, no entanto, ser constatada e encarada com coragem. De todo modo, é ruim.
É muito ruim desilusão ativa, esta corajosa tarefa que busca tirar todo dia um tiquinho de ilusão do cotidiano pra seguir com uma verdade enorme. Enorme e real, a verdade pode ser muito difícil de engolir, mas impossível de desver.
De posse da desilusão, o que resta é duro e complicado: dizer não. É o que dizem todas as músicas de superação: sertanejos, sambas, forrós, jazzes. Não tem outro jeito a não ser sair com todas as feridas e ir curando.
Os cacos do começo continuam ali, mas deixaram de ser vistos como flores. Não eram flores. E seu corpo machucado está exposto ao vento que arde tudo. E a outra pessoa nem existe. A outra pessoa foi você quem inventou.
E depois?
Depois vem as ausências enormes dos cotidianos, as lembranças das partes bonitas que ajudavam na manutenção da ilusão. Mas elas também não existem depois da desilusão. O que existe é o amargo. O que existe é você. E um monte de caminho. E pés esperando que você consiga achar os fiapos com pinça pra seguir andando.

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