Atualizado em 27/01/2026 – 17:19
Certa vez, assisti a um episódio da animação clássica Os Simpsons que mostrava o Bart perguntando ao pai se poderia levá-lo a uma festa. Homer, curtindo uma baita preguiça no sofá da sala, tenta mentalmente arranjar desculpas para não ter de sair de casa, mas, na ausência de uma resposta convincente, acaba soltando um resignado SIM. Contrariado, entra no carro e leva o filho ao evento.
Inspirado na cena relatada, decidi que neste texto discutirei a nossa (a minha, sem dúvidas) dificuldade em dizer NÃO diante das solicitações que nos são feitas. Admito que, inúmeras vezes, mesmo sabendo que se trata de uma “roubada descarada”, acabo não encontrando palavras adequadas para fugir desses “convites” com cheirinho de cilada.
O principal responsável por alimentar esse desejo de abordar esse assunto é, sem dúvida, o meu irmão. Ninguém me colocou em mais situações embaraçosas em que foi (e ainda é) difícil dizer NÃO. Lembro-me de quando ele, metido a sabichão na cozinha, criou uma vitamina de abacate incrementada com ingredientes secretos. Adivinha quem foi o tolinho que caiu na lábia dele e experimentou o líquido pantanoso?
Pequeno detalhe, porém de grande importância: só depois que eu provei o caldo e disse que estava ok, é que ele experimentou. Após eu finalizar o meu copo, é que ele disse que tinha inserido massa de pastel na receita.
Essa é só uma situação dentre várias que já passei com ele, mas as demais eu deixo para a terapia. Que ele irá pagar.
Por sua vez, isso não significa que eu não tenha colocado amigos em furadas em que foram incapazes de dizer NÃO para mim. Tadinho do meu amigo Wilken. Tão afável e doce, aceitava tudo sem pestanejar, pela amizade. O cúmulo foi quando o “convidei” para transportarmos uma geladeira gigante, daquelas frost-free, da casa de uma tia para o meu apartamento. Meu amigo, educadamente, questionou se teríamos outra pessoa para auxiliar, e eu disse que sim. O que ele desconhecia é que o ajudante era um senhor de 80 anos que estava dirigindo a Pampa sambada e desalinhada que fazia o frete.
Ao chegarmos em minha casa, notamos que o robusto eletrodoméstico não cabia no elevador. Logo, tivemos de encarar oito andares de escada. Já no primeiro lance, a coluna desse senhor travou, e ele retornou ao carro gemendo e todo corcunda. Apesar do sufoco, depois de quase 1 hora eu tinha uma geladeira em casa. Obrigado, amigo, por não saber dizer NÃO.
Desabafos e relatos à parte, esse texto tem uma nobre função de ensinar os leitores que dizem SIM a se libertarem para berrar um sonoro NÃO, SAI FORA, É RUIM, HEIN.
A seguir, vou sugerir algumas desculpas fundamentadas cientificamente para você se safar com elegância de várias situações embaraçosas sem precisar proferir um grosseiro NÃO, que o deixe mal com a consciência e com a consideração alheia.
- “Tive uma virose” – se tem algo que não comunica nada com nada é a tal da virose. Seria um resfriado, febre, diarreia, inflamação no pâncreas? Por via das dúvidas, recomenda-se manter o sujeito virótico em casa. Vai que essa parada pega.
- “Tô entrando em uma área sem sinal” – Perfeita para quando alguém te liga e você pressente a emboscada. Você se antecipa e anuncia o risco da perda de sinal. Para se tornar mais verídico, sugiro complementar que está com pouca bateria no celular.
- “Tem apresentação cultural do meu filho na escola” – Quem é que questiona os pais depois dessa? As apresentações, por mais enfadonhas que costumam ser, são momentos únicos e que precisam ser valorizados. Ressalvo que o uso dessa desculpa deve ser moderado, pois resvala em questões éticas de nível elevado e fáceis de serem desmascaradas. Caso, ainda assim, o amigo insista, você pode responder: “meu filho será o último a se apresentar”. Depois dessa, ele certamente desistirá.
- “Meu smartwatch disse que não posso” – Quem é louco de questionar um relógio inteligente que sabe quantos passos você caminha por dia e que acompanha sua frequência cardíaca durante 24 horas? Com tecnologia aplicada à saúde não se brinca. Essa desculpa adquire mais credibilidade se acompanhada de uma voz sofrida e moribunda.
- “Não vou poder dirigir. Comi um bombom de licor” – Em plena década de 2020 ainda temos amigos que fingem desconhecer aplicativos de mobilidade urbana. Na cara dura, nos convidam para sermos o motorista da rodada, enquanto eles curtem todas. Essa desculpa tem recheio de sofisticação e pode te livrar de boas encrencas.
Porém, se você chegou até aqui, no final do texto, e não encontrou uma desculpa que pode te auxiliar, eu posso me explicar.
– É que, na verdade, pouco antes de terminar este texto, estava assistindo a um ensaio da apresentação cultural do meu filho, quando meu smartwatch avisou que eu estava com uma virose. Curiosamente, isso aconteceu logo após saborear um bombom de licor em uma área sem sinal de celular. Liguei na hora para meu irmão e meu amigo e, ambos, me orientaram a terminar dignamente esse texto sem fornecer explicação.
Viu como é fácil dizer NÃO sem tanto esforço?

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