Atualizado em 02/04/2025 – 10:30
Muito além de ser uma série que brilhou na fotografia e nas técnicas sofisticadas de filmagem — sendo os episódios filmados 100% em plano-sequência —, a série Adolescência, da plataforma de streaming Netflix, escancarou como os movimentos misóginos ganham forças nas redes sociais e ultrapassam esse espaço. O VIXFeed conversou com um professor especialista e uma psicóloga para entender melhor as temáticas abordadas na produção, que vão muito além da ficção.
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Adolescência é uma minissérie britânica composta por quatro episódios que conta a história do personagem Jaime, um jovem de 13 anos acusado de ter matado a facadas uma colega da escola. Segundo o co-criador Stephen Graham, a trama foi baseada em crimes semelhantes que aconteceram na Grã-Bretanha.
Ao longo dos episódios, a ficção expõe, ora de forma sutil nas entrelinhas, ora de maneira direta, a disseminação de discursos hostis e misóginos nas redes sociais, escancarando a violência on-line e a cultura de ódio contra as mulheres, fomentadas por movimentos conhecidos como “Incel” e “Redpill”, termos também abordados na série.
“Incel” é a abreviação de involuntary celibate (celibatário involuntário, em inglês). Segundo Fernando Seffner, professor do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e pesquisador das intersecções entre educação, sexualidade e relações de gênero, o termo surgiu em comunidades on-line para descrever pessoas, geralmente homens, que se consideram incapazes de ter relacionamentos afetivos ou sexuais, mesmo que queiram.
Com o tempo, o conceito foi associado a grupos misóginos que culpam as mulheres por sua falta de sucesso romântico, promovendo discursos de ódio e, em alguns casos, incentivando a violência.
“Uma das questões que envolvem os meninos nos dias de hoje é a percepção de que as meninas não estão disponíveis para eles — uma conquista do movimento feminista. Na série, Jaime verbaliza diversas vezes seu incômodo com o fato de as jovens não o notarem. Isso evidencia um sentimento cada vez mais estudado nas masculinidades e que também é um dos meus temas de pesquisa: o ressentimento.”
Para o professor, do ponto de vista macro-político, o fato dos jovens estarem se radicalizando cada vez mais cedo nesses conceitos é observado na processo de perda de regimes democráticos ao redor do mundo e pelo incentivo a reações individualistas, egoístas e armadas.
Além disso, a noção de que a solução dos conflitos sociais passa pelo armamento tem se difundido amplamente. Um exemplo desse impacto pode ser observado na série que mostra um jovem franzino, cuja postura contrasta com a imagem geralmente associada aos incels em documentários, que tendem a enfatizar uma estética mais musculosa.
Falta de diálogo
A psicóloga Fernanda Helena Freitas afirma que existe uma barreira geracional entre pais e filhos, que hoje estão na adolescência, para explicar a falta de diálogo entre a família apresentada na série.
“O mundo mudou desde as décadas de 1980 e 1990, quando os vínculos eram mais presenciais e normatizados, enquanto hoje as relações podem ser construídas virtualmente. Outro ponto é a mudança na percepção de futuro: enquanto a geração dos pais acreditava que esforço e estudo garantiam uma vida digna, os jovens de hoje enfrentam uma grande falta de perspectivas, tornando-se mais desiludidos. Esse cenário gera dificuldades de comunicação, já que o salto geracional entre pais e filhos parece maior do que entre essas pessoas e seus próprios pais.”
Para a profissional, a série escancara a realidade de um adolescente que não foi ensinado a lidar com suas próprias emoções e sentimentos.
“O que fica muito evidente ali é que se trata de um rapaz que não foi educado para reconhecer suas próprias emoções nem para conversar sobre o que pensa e sente. É um mundo que, na verdade, não ensina os homens a lidar com emoções e sentimentos, a compreender o que sentem e pensam, ou a enfrentar suas fraquezas, dúvidas e tristezas. Ainda vivemos em uma sociedade que, em grande medida, oferece ao homem um espaço com pouca possibilidade de se reconhecer como um ser humano falho — e todos nós somos humanos e falhos”, descreve Fernanda Helena.
Redes sociais
Uma pesquisa da TIC Kids Online Brasil 2024 revelou que 83% dos jovens brasileiros que usam a internet possuem contas em redes sociais.
“Muitos pais acreditam que, por estarem dentro de casa, seus filhos estão seguros. No entanto, com o acesso à internet, a presença física não garante proteção. A mente do jovem está exposta a um ambiente vasto e imprevisível, no qual os pais não sabem com quem ele conversa, que tipo de comportamento adota ou quais influências está recebendo”, afirma a psicóloga.
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