Uma publicação da Defesa Civil Nacional ensinando a montar um kit de emergência para as primeiras 72 horas de um desastre virou assunto nas redes sociais e deixou muita gente com a mesma dúvida: vem alguma coisa por aí? No Espírito Santo, a resposta oficial é não. Em nota, a Defesa Civil estadual afirma que a orientação tem caráter preventivo e "não representa um alerta de desastre iminente" para o estado.
O carrossel foi publicado na sexta-feira (6) no Instagram da Defesa Civil Nacional, ligada ao Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, e já passa de 234 mil curtidas. Nele, o órgão explica que, em desastres de grande proporção, o socorro pode demorar a chegar a algumas localidades por causa das dificuldades de acesso. Por isso, recomenda que cada família tenha em casa água, comida, remédios e outros itens essenciais para se manter por até três dias.
"Nada de misterioso no ar"
O número 72 chamou atenção. Nos comentários, parte dos internautas leu a publicação como uma espécie de contagem regressiva para algum evento extremo. A desconfiança cresceu porque o assunto já circulava no exterior: governos europeus vêm orientando suas populações a se prepararem para três dias de autonomia em caso de crise.
O jornalista André Trigueiro, conhecido pela cobertura de meio ambiente, criticou o tom do post. "Máximo respeito pela Defesa Civil, mas essa postagem foi inadequada. Gerou desnecessariamente pânico e desconfiança", escreveu. Para ele, a peça "parece um alerta típico de países em guerra". O comentário passou de 3,2 mil curtidas.
Diante da repercussão, a própria Defesa Civil Nacional foi aos comentários, em tom bem-humorado: "Pessoal, é apenas um conteúdo sobre prevenção! Não existe nada de misterioso no ar ou alguma inversão alienígena". O órgão lembrou que publica conteúdos de prevenção todos os dias e pediu que os seguidores fiquem tranquilos.
O que diz a Defesa Civil do ES
Na nota, a Defesa Civil do Espírito Santo explica que a recomendação nacional segue práticas internacionais de proteção e segurança. Segundo o órgão, a orientação "não está necessariamente relacionada à previsão de um desastre iminente", mas busca fortalecer a capacidade de resposta da população diante de situações adversas.
Isso não significa baixar a guarda. A nota pede atenção redobrada de quem mora em áreas sujeitas a alagamentos, enxurradas e deslizamentos, ou em locais que podem ficar isolados. Para esses moradores, a orientação é adotar desde já medidas de preparação.
A Defesa Civil estadual informa que segue monitorando as condições meteorológicas e orienta a população a acompanhar os avisos e boletins oficiais.
El Niño e o cenário capixaba
A nota também responde a outra dúvida que ganhou força nas redes: o papel do El Niño. O fenômeno altera a circulação atmosférica e a distribuição das chuvas no Brasil e pode favorecer precipitação intensa, sobretudo na Região Sul. Os efeitos, porém, variam conforme a região, ressalta a Defesa Civil.
Para o Espírito Santo, as previsões atuais não indicam chuvas prolongadas. A preocupação é com tempestades pontuais: muita chuva em pouco tempo, alagamentos localizados, rajadas de vento e granizo.
O El Niño em curso deve ser forte. O boletim de outubro do Painel El Niño, divulgado pelo Inmet em 29 de outubro, aponta elevada probabilidade de o fenômeno atingir intensidade muito forte a partir de novembro. Entre novembro e janeiro, a previsão é de chuva acima da média no Sul e em partes do Sudeste e do Centro-Oeste, e de calor acima da média em quase todo o país.
No Espírito Santo, que fica numa área de transição climática, o governo estadual trabalha desde julho com um cenário de estiagem longa, temperaturas altas e maior risco de incêndios florestais, sem descartar chuvas fortes e isoladas.
Por que 72 horas
A referência de três dias não é invenção brasileira. Agências de proteção civil de vários países usam esse prazo porque, logo após um grande desastre, os serviços de resposta ficam sobrecarregados e podem demorar a chegar a todos, sobretudo onde estradas e comunicações foram afetadas.
Na Europa, o tema voltou ao noticiário nesta semana. Na terça-feira (3), a Comissão Europeia recomendou aos 27 países do bloco que incentivem as famílias a manter em casa um kit capaz de garantir autonomia por pelo menos 72 horas. A orientação, apresentada no Fórum Europeu de Proteção Civil, em Bruxelas, não é obrigatória. O bloco também propôs criar um Dia Europeu da Preparação a partir de 2027.
A ideia já constava da estratégia de preparação lançada pela União Europeia em março de 2025, pensada para cenários como desastres naturais, apagões, ataques cibernéticos e conflitos armados. Portugal, por exemplo, reforçou a recomendação às famílias em março deste ano. No Brasil, o foco da Defesa Civil são os desastres naturais, como enchentes, enxurradas e deslizamentos.
O que ter no kit
Segundo a Defesa Civil Nacional, muitos desses itens já estão em casa, e mesmo um kit incompleto ajuda. A lista recomendada:
• Água potável: 2 litros por pessoa por dia, ou 6 litros por pessoa para os três dias
• Comida não perecível: frutas secas, barras de cereais, biscoitos e enlatados
• Utensílios: pratos e copos plásticos, talheres, abridor de latas, papel toalha e sabão
• Saúde: remédios de uso contínuo com cópias das receitas, álcool em gel, aparelhos médicos com baterias e carregadores (como medidores de glicose), óculos, lentes e repelente
• Higiene: itens de banho, escova e creme dental, absorventes e papel higiênico
• Roupas: algumas mudas e calçados confortáveis
• Eletrônicos: rádio AM/FM, lanternas, pilhas de reposição guardadas separadas, carregadores e power bank
• Pasta impermeável: documentos pessoais, dinheiro em espécie, objetos de valor, escritura do imóvel e lista de contatos importantes
• Sacolas plásticas avulsas, para proteger objetos da umidade e da sujeira
• Itens específicos para bebês, crianças e animais de estimação
A recomendação é conferir as validades a cada seis meses.
Para receber alertas no celular, basta enviar um SMS com o CEP para o número 40199. Em situações de risco grave, o sistema Defesa Civil Alerta também dispara mensagens direto nos aparelhos da área afetada, sem necessidade de cadastro. Em emergências, os telefones são 199 (Defesa Civil) e 193 (Corpo de Bombeiros).
Feito no Espírito Santo.




