Atualizado em 27/02/2025 – 09:48
Embora apareça em quinto lugar entre as principais causas de morte, a poluição atmosférica pode estar por trás – e subnotificada – de outras doenças mais frequentes, que também tiram a vida de milhões de pessoas no mundo todo ano. A temática esteve em debate na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), durante a Reunião Regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), no campus de Goiabeiras.
“Eventos agudos, por exemplo, como as arritmias cardíacas e os quadros de insuficiência respiratória, ocorrem quando a poluição do ar aumenta”, explicou o professor do Departamento de Ciências Fisiológicas da Ufes José Geraldo Mill.
E completou: “Isso tem uma correlação direta, às vezes [pode ocorrer] no mesmo dia, ou de um a dois dias depois”, o que, segundo ele, dificulta fazer a ligação entre um evento climático agudo e um problema de saúde.
A fala de Mill ocorreu durante a mesa-redonda Poluição Atmosférica Urbana e Saúde, realizada no dia 21 de fevereiro, como parte da programação científica da Reunião Regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), no campus de Goiabeiras. Além dele, a mesa contou com a participação da química Roberta Urban, professora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), que falou sobre poluição por plásticos. A atividade foi coordenada pela biomédica Marimélia Porcionatto, professora da Escola Paulista de Medicina (EPM) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e diretora da SBPC.
Doenças cardíacas
José Geraldo Mill é fisiopatologista cardiovascular e coordena pesquisas em epidemiologia de doenças cardíacas. Segundo ele, pelas estatísticas oficiais da Organização Mundial de Saúde (OMS), a poluição do ar mata aproximadamente de 55 a 57 milhões de pessoas todos os anos, o que equivale a 13-16% do total de mortes. Essa causa mortis vem atrás de riscos dietéticos (dietas inadequadas), hipertensão arterial, uso do tabaco (por câncer e outras enfermidades causadas pelo fumo) e distúrbios de metabolismo da glicose (diabetes).
Só o contato de poluentes com as vias respiratórias já provoca um desbalanceamento do sistema nervoso simpático e parassimpático, afetando os batimentos cardíacos e principalmente a musculatura lisa dos brônquios, provocando aumento de crises de insuficiência respiratória, explicou. Além disso, a inalação de poluentes no ar pode elevar a pressão arterial e potencializar a aterosclerose (depósito de placas de gordura nas artérias), doença cardiovascular mais comum entre as pessoas acima de 50 anos.
“A poluição impacta a mortalidade ao longo do tempo porque ela afeta vasos sanguíneos de todo o organismo, não tem nenhum órgão que se salva desse impacto”, afirmou Mill.
Plástico por toda parte
Na abertura da mesa, a coordenadora Marimélia Porcionatto mencionou um estudo realizado na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM/USP), que identificou partículas de microplásticos no cérebro de oito pessoas a partir de sua autópsia, por meio da qual os pesquisadores coletaram amostras do chamado bulbo olfatório. Estudos anteriores, porém, documentam a presença de microplásticos por toda a parte – em frutas, legumes, peixes e até no leite materno.
“Já tinha um trabalho publicado anteriormente [ao do cérebro], que determinou em 13 das 20 amostras de pulmões a presença de partículas e fibras plásticas, com composições químicas bastante variáveis”, comentou a pesquisadora Roberta Urban. Atuando na área de química ambiental, ela pesquisa nanotoxicologia, microplásticos, nanoplásticos e outras partículas, suas composições e as implicações para saúde e o clima.
Segundo Urban, estas partículas podem penetrar não só nos pulmões, como já foi demonstrado, mas também atingir o sistema circulatório e se espalhar por todo o corpo, inclusive o cérebro, órgão mais protegido.
“Em termos de toxicidade, os dados ainda são muito incipientes”, acrescentou a pesquisadora, frisando que os estudos ainda estão em andamento, e as respostas, por enquanto, são muito variáveis, desde efeitos tóxicos e mudanças metabólicas até danos ao DNA, mas faltam dados para preencher as lacunas do conhecimento nessa área.
Urban concluiu ressaltando a necessidade de se repensar os padrões de consumo para diminuir o descarte de plásticos. “A gente consome e muitas vezes não pensa no ciclo de vida desses produtos”, ponderou.
“Esse tema certamente nos afeta a todos”, comentou Porcionatto, lembrando que a poluição atmosférica tem sido impulsionada pelos incêndios florestais, como queimadas na Amazônia e nas áreas rurais, como as que atingiram fortemente o interior de São Paulo em 2024, assunto abordado pelo vice-presidente da SBPC, Paulo Artaxo, em sua conferência de abertura da Reunião Regional.
“No caso específico da poluição sobre a saúde humana, a gente sempre pensou muito nos efeitos cardiorrespiratórios, nas alergias, e mais recentemente temos visto também o impacto no cérebro e em doenças neurodegenerativas”, disse a coordenadora da mesa-redonda.
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