Proponho um tratado. Vamos trocar os climas pelas galinhas. É uma verdade universalmente conhecida que uma pessoa sem assunto que tenha vontade de puxar assunto com outra pessoa deve provavelmente falar de clima. Será que vai chover?
Acredito na civilidade, acredito no coletivo, acredito em assuntos melhores. Meu tratado é assertivo: em lugar de falar de clima, devemos todos assumir que o assunto coringa doravante é galinha. Ovo também serve. O importante é que funciona.
Pra começo de conversa, clima é chatíssimo. Só tem como dizer se vai chover ou ficar seco, fazer frio ou fazer calor. Não tem grandes variáveis, não gera uma possibilidade de conversa real. Ao se falar de galinha, no entanto, todo mundo tem uma história pra contar.
Por exemplo, esses dias eu estava contando que na feira peço ovos da galinha da cloaca frouxa. O feirante não se choca. Ele sabe que os ovinhos pequenos da galinha donzela não são minha preferência e logo me aponta os ovos da galinha mais experiente (os enormes).
Na feira, todos riem. Na roda de conversa, a colega conta que na verdade o ovo não tem nada a ver com a cloaca. Diz que tem alguma coisa a ver com o contato com o oxigênio, e que as galinhas volta e meia tomam coisas para botarem mais ovos.
Outra vez reclamei que prefiro ovos caipiras a ovos brancos, porque os caipiras têm uma gema mais firme, melhor de controlar se vai ser mole ou dura e separada da clara. A moça disse que quanto mais ovo a galinha bota, mais rala fica a gema.
Se a galinha é feliz, o ovo é mais firme, uma gema vistosa, uma gema que sustenta a fritura e continua ali inteira, quebrando bonita na colher. Em compensação, meu amigo veterinário questiona a ideia de galinha feliz. Ele nem come ovo, de tão penoso que fica.
Eu não lembro quem disse a comida que a galinha come pra botar mais ovo. Não achei no google, também. O fato é que as galinhas também podem ter bicos arrancados para atender ao mercado, e isso é realmente chocante.
Também são vários os tipos de galinhas, e várias pessoas tiveram uma galinha de estimação, um pintinho, uma tia que tem galinhas em casa. Galinha gera infinitas possibilidades de qui qui qui. Ela não voa, mas o assunto sim.
Até eu que quase não convivo com galinha tenho cá meus conhecimentos da bibliografia galinácea: Clarice Lispector (a vida íntima de Laura), Fabíola Colares (a galinha de capoeira), Vinícius de Moras (a galinha d’angola).
Há também infinitas histórias de amizade com galinha que depois vira canja. É uma comoção garantida se você tem uma dessas.
E não vou cacarejar mais muito. Acho que estamos combinados. O negócio de puxar assunto não vai ser mais em torno de chover. O tratado é não ter pena de chocar.

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