Atualizado em 02/01/2026 – 15:56
Aparentemente, o algoritmo do meu Instagram descobriu a mudança do meu estado civil. E não bastasse ter que lidar com o luto de uma separação e a construção de uma nova vida, agora preciso também ter o feed bombardeado por gurus da sedução e coaches de relacionamento. Homens e mulheres que prometem entregar o “manual definitivo do amor”, como se as relações fossem redondinhas, todas iguais.
As regras são de uma cafonice atroz, mas confesso: com um marketing implacável. “Não responda rápido”, “mantenha sempre três nomes na reserva”, “não convide para sair” — aquele mesmo lenga-lenga desde que o mundo é mundo. Esses conselhos vêm em formato de amostra grátis para, logo em seguida, empurrarem um e-book que promete o milagre de fazer o outro rastejar atrás de você.
Devo confessar que, apesar de recém-chegada a esta vida de solteira, tenho os meus dois pés muito bem fincados no chão, obrigada. Se há nicho, há público; e, ao receber esse tipo de conteúdo, percebo o quanto tentam se aproveitar da fragilidade do outro — na maioria esmagadora das vezes, das outras. Nós, mulheres, taxadas de carentes, necessitadas de um amor água com açúcar que nos dê uma família de comercial de margarina. E não há nada de errado nisso, certo? Inclusive, esse é um sonho ainda bem guardadinho dentro do meu peito.
Mas é que, para mim, há algo de profundamente indigesto nessa ideia de montar todo um cenário para ser amada, tal qual esses perfis ensinam. Se eu preciso esconder quem eu sou para que o outro fique, quem, afinal, ele está amando? A mim ou à personagem criada? Onde ficam os meus valores nessa loucura toda?
Minhas amigas, sempre queridas e realistas, avisaram: “o mar está salgado”. De fato, lidar com o homem heterossexual não é muito fácil, e eu poderia criar outra crônica em cima desta falando sobre a indisponibilidade e imaturidade emocional deles, envoltas em narcisismo e autoproteção — e, antes que me acusem de generalização, basta pesquisar a hashtag #PovHomens2025 e saberão do que estou falando (medo do que vem em 2026).
Sobretudo, tento sempre assumir a minha responsabilidade na desordem da qual eu me queixo e, já que não posso mudar o outro, pergunto-me: quanto disso é reflexo do que eu aceito? Por que insistimos em permanecer onde há um esforço sobrenatural para o amor existir?
Precisamos parar de negociar nossas certezas e de tolerar o insustentável apenas para não estarmos sozinhas. O amor deve ser um lugar de conforto absoluto e, se for para estar junto, que seja com naturalidade. Que a pessoa ao seu lado não se sinta ameaçada pela sua gramática perfeita ou pelas suas preferências literárias peculiares; pelo contrário, que ela se encante por essas e tantas outras esquisitices que você tem sem precisar escondê-las.
Os “gurus” não ensinam, mas eu te conto. Se o preço para ser notada é tornar-se invisível para si mesma, anulando tudo aquilo que te faz bem em prol do outro, se faça um favor: chame o garçom, peça a conta e vá embora. Essa, inclusive, deveria ser a regra número um do manual definitivo do amor (só que próprio).

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