Atualizado em 20/03/2026 – 15:44
Não comprei flores em Madrid, mas cultivei um ramo em Salamanca, minha casa para os próximos meses. Entre o cotidiano inicial tumultuado de uma mãe solo, bolsista de doutorado, que trouxe a cria para uma aventura internacional, e a rotina pacata de uma cidade pequena e universitária no interior da Espanha, estamos nos adaptando.
Os dias aqui são mais lentos, os espanhóis têm hábitos tardios, almoçam às duas, jantam às nove e eu não entendi direito a hora que vão dormir. Nas primeiras semanas, o jet lag e o frio não deixavam a gente acordar muito contente. Sete e meia da manhã e ainda estava noite, para a indignação da criança que se enrolava na coberta, murmurando alguma frase ainda dormida.
Aos poucos, o calor está vindo e os dias começaram a ficar mais longos. Nós também, mais domesticadas com o fuso daqui. A criança está na escola, onde aprende espanhol e, a cada dia, se comunica melhor. Nós vamos caminhando até lá e, durante o trajeto, a gente brinca de perguntar uma para a outra onde estamos, como um lembrete diário sobre a força dos nossos sonhos. Enquanto admiramos o percurso, descrevendo as mudanças da estação, ela aponta para a árvore da esquina que recebeu nova folhagem. Repete a frase que disse antes, dessa vez falando “árbol” em vez de árvore. Internamente, rogo para que a gente nunca se acostume com a paisagem, que a gente sempre se deslumbre.
Observo a cultura local como qualquer pesquisadora em Letras, com um pé na antropologia, certificando-me, vez ou outra, de que ambos estejam na poesia — o que não significa qualquer garantia de estabilidade no solo. Inclusive, aqui os nossos sapatos indicam a nossa origem estrangeira. Não só pelas cores, mas a escolha equivocada para os dias chuvosos entrega a nossa falta de tato com o clima. Além disso, nem nos dias de sol permitem que minha filha use seu tênis de unicórnio astronauta na escola: o sistema educativo espanhol é contra sapatos que piscam.
Aliás, nessa viagem, a língua é mãe, e eu também. Nas outras ocasiões em que estive em Salamanca, as pessoas me escutavam como uma pesquisadora latino-americana no campo acadêmico. Meu sotaque argentino, cultivado a mate e milanesa de pollo, somava-se ao sobrenome italiano e eu passava batida como uma estrangeira latino-americana. Agora, não chego sozinha a lugar nenhum e, antes que a gente se apresente, as pessoas nos escutam falando em português.
A denúncia pela língua, me parece, só identifica a nossa identidade estrangeira como não falante do espanhol. Algumas pessoas tentam alcançar um tipo de xenofobia recreativa, hora ou outra, repetindo minhas frases com o sotaque da região. Por outro lado, há lugares que demonstram cortesia independentemente da nacionalidade, onde as crianças ganham doces e as mães, cerveja.
Diante do distante, algumas diferenças culturais tornam-se mais evidentes. O silêncio da rua de madrugada em nada se assemelha à Rua Sete de Setembro. Com a rua, partilhávamos a feira aos sábados, os carnavais e uma coreografia secreta encenada apenas aos moradores. Aqui falta corpo na rua, barulho de batuque, ginga. Isso atravessa o modo como as pessoas se comunicam, gesticulam, se alimentam, como tratam a lei e como impõem ordem.
Ter o corpo longe do seu lugar de origem permite aguçar as percepções sobre ele e sobre outros corpos. Desse contraste, vibra grave a memória de corpo que move a nossa cultura. É um alívio recordar a presença de corpo encarnada em mim. Asseguro essa herança com a minha filha, garantindo que a sua altivez e borogodó estejam resguardados. Noto que funciona quando a vejo caminhar por outros territórios, vestida de uniforme, com saia de pregas e sapatos agora adequados ao solicitado pela instituição. Ela segue o caminho segura, bailante e de óculos escuros amarelos.

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