Sigo encucada com os assuntos de coração. Depois de ter ido ao cardiologista, foi o dia do fatídico exame, o tal eletrocardiograma que mede o tamanho de átrios e ventrículos. Diz se o coração está inteiro ou partido. Se tá segurando coisa, se tem um bom tamanho.
Eu lá tenho condição de olhar essas coisas sem metáfora? É claro que não. Ponho o avental de peito aberto (de peito aberto!) e me abro diante da médica. Ela me pergunta:
_ É a primeira vez que você examina o coração?
Eu penso “não, doutora, sou escritora. Examino ele todos os dias inclusive porque costuma me dar um bom material”. Mas respondo:
_ Sim, doutora.
_ Agora vai entrar um gel, vai gelar um pouco.
E eu pensando que meu coração ela não ia conseguir gelar assim tão fácil. Ela pede que eu me segure (segure os peitos, na verdade, para melhor visualização do músculo involuntário que pulsa) e eu obedeço. Fico sem respirar quando ela pede, e de repente a pressão do negocinho de olhar o coração começa a doer meus peitos.
_ Dói, né, doutora?
_ Pra poder ver o coração direito dói um pouco, sim.
Penso em meus próprios exames metafóricos de coração. Quando eu me olho muitas vezes dói mesmo, e na dor a gente vê bem o coração. Por sorte e teimosia tenho a poesia.
Lembro de uma música que é da Alice Ruiz e da Estrela Leminski. “Por favor não me aperte tanto assim/ Tome cuidado pega leve, olha onde pisa/ Isso é o meu coração/ Isso é o meu ganha pão”.
Começo a mentalmente rir de mim mesma enquanto a médica printa uma coisa ou outra de meu órgão na telinha preto e branca com o mouse.
_ Tá tudo certo, doutora?
_ Seu coração é normal.
Achei um pouco triste a notícia, achei que por ter um coração de poeta talvez ele fosse maior que os outros. Mas a poesia me engana como eu mesma faço. Não tenho o peito maior do que o de ninguém, apenas a capacidade técnica de dizer sobre ele.
Senhoras e senhores, eu sofro!
Por favor, aplaudam agora.

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