Pintura, crochê, bordado, cerâmica e outras artes manuais ganharam um novo significado para um grupo de profissionais do Espírito Santo. Em vez de serem apenas atividades criativas, elas passaram a ser utilizadas como ferramentas de acolhimento, convivência e cuidado com a saúde mental. Foi a partir dessa proposta que nasceu a Manualidadeterapia, cooperativa criada em março de 2025.
Formada por profissionais de diferentes áreas, a iniciativa reúne especialistas em saúde, gestão e arte para desenvolver vivências voltadas ao desenvolvimento humano. A ideia começou a ser construída meses antes da criação oficial da cooperativa, a partir de uma oficina de pintura em tela realizada em 10 de outubro de 2024, Dia Mundial da Saúde Mental.
Naquele encontro, participantes com interesses em saúde emocional e artes manuais começaram a discutir a possibilidade de levar a proposta adiante. O grupo cresceu e, inicialmente com 14 cooperados, a Manualidadeterapia foi constituída oficialmente em 13 de março de 2025, durante uma assembleia realizada na sede do Sistema OCB/ES.

Uma ideia que começou no consultório
As primeiras conversas sobre a criação da cooperativa aconteceram entre a presidente da Manualidadeterapia, Henriqueta Hosken, e a diretora administrativa e financeira, Ruth Santos. As duas estavam em processos de transição profissional e tinham em comum o interesse pelo cuidado em saúde mental.
Ruth aprendeu crochê ainda na infância e, aos 50 anos, iniciou os estudos em psicanálise clínica. Henriqueta, colega de formação, também vivia uma mudança profissional. Foi durante os atendimentos que ela começou a perceber uma demanda que ajudaria a dar forma ao projeto.
Segundo Henriqueta, aumentava a procura de mulheres entre 50 e 80 anos com questões relacionadas à saúde emocional.
“Começamos a perceber que muitas mulheres chegavam ao consultório com questões semelhantes. Eram histórias diferentes, mas com demandas muito parecidas. Então pensamos em criar grupos para atender um número maior de pessoas e oferecer um espaço de acolhimento coletivo”, afirma.
Inicialmente, as idealizadoras consideraram formatos como associação e coletivo. A opção pela cooperativa surgiu como uma forma de reunir profissionais de diferentes áreas em torno da mesma proposta, com uma atuação colaborativa.
Hoje, a Manualidadeterapia desenvolve vivências terapêuticas que utilizam o fazer manual como ponto de partida para estimular reflexões, fortalecer vínculos e criar espaços de convivência.
Quando o fazer manual vira encontro
Para a diretora técnica da cooperativa, Ivana Silveira de Castro, o próprio processo de produzir uma peça pode ajudar a criar um momento de presença e contato com as próprias emoções.
“Nós sabemos que quando mantemos a nossa mente e as nossas mãos ocupadas, ficamos num estado de presença. Quando você entra em contato com a arte, começa a trazer a sua história, suas emoções”, afirma.
Segundo Henriqueta, muitas mulheres que procuram a cooperativa chegam depois de anos dedicados ao cuidado de familiares e com pouco tempo reservado para si.
“Muitas relatavam que seu momento de lazer era levar filhos ou netos para passear. Mas, quando conversávamos, percebíamos que ainda estavam exercendo um papel de cuidado. Aos poucos elas começam a identificar a importância de reservar um tempo para si.”
De acordo com a presidente, as mudanças também aparecem na forma como algumas participantes passam a se perceber durante as atividades.
“Nós acompanhamos mulheres que chegaram mais retraídas e, ao longo das vivências, passaram a demonstrar outra postura. Em registros fotográficos feitos durante as primeiras oficinas, foi possível observar mudanças na expressão, na forma de se apresentar e na maneira como elas se percebiam”, afirma.
Além das atividades voltadas ao público em geral, a cooperativa também desenvolve soluções para empresas e instituições, incluindo ações relacionadas à gestão de riscos psicossociais no ambiente de trabalho.

Cenário da saúde mental no Brasil
A iniciativa surgiu em um cenário em que as questões relacionadas à saúde mental têm ganhado cada vez mais espaço no debate público. Dados do inquérito Covitel 2023, disponíveis no Observatório da Saúde Pública da Umane, mostram que 12,7% da população brasileira conviviam com depressão e 26,8% relataram sofrer de ansiedade.
Entre as mulheres, os índices eram de 18,1% para diagnóstico de depressão e 34,2% para ansiedade. Entre os homens, os percentuais eram de 6,9% e 18,9%, respectivamente.
É nesse cenário que a Manualidadeterapia aposta em uma atividade simples e presente no cotidiano de muitas pessoas para criar espaços de convivência e cuidado. A proposta é que, entre linhas, tintas, tecidos e argila, também exista espaço para falar sobre aquilo que nem sempre encontra lugar na rotina.

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