Atualizado em 08/02/2026 – 06:21
A segunda noite de desfiles do Carnaval de Vitória 2026, realizada neste sábado (7) e que adentrou pela madrugada deste domingo (8), levou uma multidão ao Sambão do Povo e finalizou as apresentações das escolas de samba do Grupo Especial. O momento foi marcada por emoção, enredos bem construídos e apresentações que alternaram tradição, crítica social e celebração da cultura capixaba. Agora, a expectativa é para a apuração das notas, nesta quarta-feira (11), que vai definir a próxima campeã.
Passaram pela avenida as escolas Rosas de Ouro, Unidos da Piedade, Independente de Boa Vista, Chegou o que Faltava e Andaraí, transformando a avenida em um desfile de cores, ritmos e narrativas que prenderam o olhar do público até o último setor. A resposta das arquibancadas e dos camarotes confirmou o envolvimento do público e indicou que o resultado final não será fácil de prever.
Confira os detalhes de cada escola:
Rosas de Ouro
A Rosas de Ouro, escola do município de Serra, abriu a segunda noite de desfiles neste sábado (7) levando para a avenida um mergulho na história e na identidade do norte do Espírito Santo com o enredo “Cricaré das Origens – Brasil que nasce em São Mateus”. A agremiação apostou em uma narrativa que coloca o Rio Cricaré como fio condutor da formação cultural, social e histórica da cidade, resgatando a presença indígena, a resistência negra e os processos de miscigenação que moldaram o território mateense ao longo dos séculos.
Com fantasias de forte apelo simbólico e alegorias que dialogaram com temas como fé, luta, memória e pertencimento, a escola apresentou um desfile coeso, valorizando personagens históricos como Zacimba Gaba e Benedito Meia-Légua. Apesar disso, apresentou alguns problemas técnicos com o primeiro carro alegórico e primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, mas fez uma passagem de muita qualidade pelo Sambão do Povo ao longo de 22 alas.
Única escola do carnaval capixaba a contar com uma intérprete mulher, a Rosas de Ouro reforçou seu compromisso com representatividade e tradição, consolidando sua estreia no Grupo Especial com um enredo de identidade, resistência e celebração cultural.
O presidente da Rosas de Ouro, Francisco Carneiro Junior, celebrou o desempenho da escola ao final do desfile. “Foi maravilhoso, acima das expectativas. Eu digo que sozinho não faço nada, temos uma equipe grande, galera que compra as minhas ideias e eu só tenho a agradecer”, declarou.
Unidos da Piedade
A Unidos da Piedade, segunda a entrar no Sambão, levou para a avenida um desfile profundamente ligado à sua própria história com o enredo “O Canto Livre de Papo Furado”. A agremiação apresentou uma homenagem a Edson Papo Furado, um de seus intérpretes mais emblemáticos, costurando sua trajetória pessoal com a vivência coletiva dos morros da Piedade, Fonte Grande e entorno. A narrativa apostou em uma abordagem poética, que transformou o cantar livre do homenageado em símbolo de identidade, ancestralidade e resistência cultural.
Com 15 minutos de desfile, a escola precisou parar a apresentação. De acordo com a Liesge, por um problema de energia elétrica no bairro do sambódromo, foram registrados problemas na sonorização da avenida. O cronômetro ficou paralisado e retornou quando o problema foi administrado. Ao retomar a passagem pelo Sambão, a Piedade foi ovacionada e o público acompanhou cantando o samba-enredo.
Com uma estrutura dividida em 23 alas que percorreram infância, formação musical, boemia e legado de Papo Furado, o desfile destacou o samba como expressão de fé, cotidiano e liberdade. Com o enredo, a Piedade reafirmou seu vínculo com seus baluartes e com a tradição que a consagrou como a escola mais antiga do Espírito Santo, na busca por mais um título em sua trajetória.
Independente de Boa Vista
Atual campeã do carnaval capixaba, a Independente de Boa Vista foi a terceira a desfilar e levou para a avenida uma forte carga simbólica e identitária com o enredo “João do Congo – A Voz que Dança nas Folhas da Resistência”. A escola de Cariacica transformou o Congo em eixo central da narrativa, exaltando essa manifestação como sistema vivo de memória, fé e cultura popular no Espírito Santo. A figura de João Bananeira surge como personagem encantado e coletivo do folclore do município, representação do corpo que dança, resiste e ocupa a rua como espaço de liberdade.
O personagem principal veio logo na comissão de frente, interpretado por alfredo Godô, dançarino e passista da Boa Vista e que todos os anos se veste como o personagem para o tradicional Carnaval de Congo de Máscaras de Roda D’Água, em Cariacica.
Com uma construção poética que percorre ancestralidade africana, territórios indígenas, devoções populares e o sincretismo religioso, o desfile destacou o Congo como prática cotidiana e herança transmitida entre gerações. Ao celebrar seus 50 anos, a escola levou para o Sambão do Povo um manifesto de resistência cultural, onde tradição e identidade caminharam juntas.
Chegou o que Faltava
A Chegou o Que Faltava foi a quarta escola desta segunda noite de desfiles e levou para a avenida um desfile de forte caráter simbólico e reflexivo com o enredo “Orí – Sua Cabeça é Seu Guia”. Inspirada na filosofia iorubá, a escola apresentou o Orí como princípio da consciência, do destino e da conexão espiritual, convidando o público a uma jornada de autoconhecimento que atravessa ancestralidade, fé e identidade. A narrativa colocou o indivíduo no centro da história, destacando a importância da memória e da espiritualidade como caminhos de orientação coletiva.
Com fantasias e alegorias carregadas de significado, o desfile traduziu conceitos filosóficos em imagens de fácil leitura na avenida, valorizando símbolos da cultura afro-brasileira e o diálogo entre corpo, mente e espiritualidade. O samba-enredo conduziu a apresentação como um chamado à reflexão, reforçando a ideia de que reconhecer as próprias origens é também um ato de resistência. Ao apostar em um tema profundo e autoral, a Chegou o Que Faltava consolidou sua proposta artística no Grupo Especial do Carnaval de Vitória 2026.
Andaraí
Última escola a desfilar pelo Grupo Especial, a Andaraí levou para a avenida um desfile de forte carga simbólica e afetiva com o enredo “01/12/1946”, transformando a própria trajetória em narrativa carnavalesca. Fundada no bairro de Santa Martha, em Vitória, a agremiação revisitou suas origens não apenas como um marco histórico, mas como um acontecimento atravessado por ancestralidade, espiritualidade e resistência popular. A proposta conectou céu e terra, mito e realidade, para reafirmar a identidade de uma das escolas mais tradicionais do carnaval capixaba.
Com uma construção poética que percorreu o nascimento da batucada, o futebol de várzea, a fé popular e os ciclos de afastamento e retomada da avenida, o desfile apresentou a Andaraí como um organismo vivo, forjado na força da coletividade e da memória comunitária.
Alegorias, fantasias e o samba-enredo traduziram essa travessia em imagens de pertencimento e celebração, reforçando o carnaval como espaço de preservação cultural e afirmação social. Ao narrar a própria história, a “Verdiosa” projetou o passado no presente e reafirmou seu legado como patrimônio vivo do samba capixaba.

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