Atualizado em 07/02/2026 – 05:47
A primeira noite de desfiles do Carnaval de Vitória 2026, realizada nesta sexta-feira (6), levou o público ao Sambão do Povo e deu o tom da disputa, que seguirá movimentando a avenida no sábado (7). Com um clima de reencontro entre público, comunidades e escolas, a abertura do Grupo Especial foi marcada por emoção, enredos bem construídos e apresentações que alternaram tradição, crítica social e celebração da cultura capixaba.
Abrindo e fechando a noite, passaram pela avenida as escolas Pega no Samba, Novo Império, Unidos de Jucutuquara, Mocidade Unida da Glória (MUG) e Imperatriz do Forte, cada uma apostando em narrativas próprias, fantasias com impacto visual e evoluções que empolgaram o público. Entre sambas cantados em coro, alegorias grandiosas e alas coreografadas, a sexta-feira deixou claro que a disputa pelo título promete ser acirrada até o último desfile.
Confira os detalhes de cada escola:
Pega no Samba
A Pega no Samba foi a escola que abriu a primeira noite de desfiles do Grupo Especial, nesta sexta-feira (6), levando para o Sambão do Povo o enredo “Okê Caboclo Sete Flechas – Guardião Ancestral da Natureza”.
Cada uma das 20 alas convocou a avenida a vivenciar a energia da mata da ancestralidade e dos caminhos de cura trazidos pelo Caboclo Sete Flechas, entidade de luz, proteção e sabedoria ligada à Umbanda e às religiões de matriz africana. Com isso, a mensagem foi de que cuidar da natureza é também preservar a memória, a fé e o futuro.
Uma das alas que demonstrou forte conexão com o Espírito Santo foi a que retratou a saíra-apunhalada (Nemosia rourei), uma ave rara e ameaçada de extinção que vive em áreas remanescentes da Mata Atlântica capixaba, onde se tornou símbolo da biodiversidade local e da luta pela preservação ambiental.
O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Luan Gomes e Katrielly dos Santos, contou ao VIXFeed como foi a emoção de desfilar conduzindo o pavilhão da escola. “É meu primeiro ano como porta-bandeira e pela Pega no Samba, que é de uma comunidade muito acolhedora. Desfilar foi uma emoção indescritível, ver a comunidade vibrando, foi nos dando força do início ao fim, foi lindo demais”, definiu Katrielly.
Novo Império
A Novo Império foi a segunda escola a atravessar o Sambão do Povo nesta primeira noite de desfiles do Grupo Especial. Com o enredo “Aruanayê – guardiãs dos mistérios ancestrais”, a agremiação levou 20 alas para a avenida exaltando a mulher como guardiã da sabedoria ancestral, da espiritualidade e da continuidade da vida.
Mais do que uma personagem, a figura feminina de Aruanayê é a própria manifestação da Mãe Terra: corpo que dança, protege, cura e resiste. Durante a passagem pela avenida, a Novo Império apresentou alguns problemas técnicos com o áudio, mas o público não deixou de entoar o samba a plenos pulmões, demonstrando conexão com a escola. Também foi percebida a falta de algumas partes de fantasias que não chegaram ao Sambão, mas a agremiação não se deixou abalar e seguiu animada do início ao fim.
Unidos de Jucutuquara
Terceira a entrar na avenida na primeira noite do Carnaval de Vitória 2026, a Unidos de Jucutuquara levou para a avenida o enredo “Arreda, homem, que aí vem mulher”, colocando como figura central Maria Padilha, uma nobre espanhola famosa por ter sido a amante e, postumamente, rainha reconhecida de Pedro I de Castela. Mas em um contexto de tradições afro-brasileiras, ela é uma entidade espiritual amplamente cultuada, pombagira das encruzilhadas, dos caminhos e das passagens.
Na avenida, ao longo das 19 alas, Padilha foi apresentada como força ancestral que atravessa tempos, territórios e imaginários, articulando espiritualidade, cultura popular e memória coletiva. Da corte espanhola demonizada pela história oficial aos terreiros brasileiros perseguidos pela ignorância, essa figura revela o destino recorrente das mulheres que ousaram existir fora da linha: foram chamadas de perigosas, de imorais, de demônios.
A escola, que no desfile do ano passado teve um problema com as fantasias, desta vez conseguiu entregar um desfile completo e com boa evolução, utilizando a rosa como um símbolo de Maria Padilha durante todo o trajeto pelo Sambão do Povo.
Mocidade Unida da Glória (MUG)
Quarta a entrar na avenida na primeira noite do Carnaval de Vitória 2026, a Mocidade Unida da Glória (MUG) levou para o Sambão do Povo o enredo “O Diário Verde de Teresa”, resgatando a trajetória da princesa e cientista alemã Teresa da Baviera. A escola transformou em samba a expedição realizada por Teresa ao Espírito Santo em 1888, quando a pesquisadora, à frente de seu tempo, catalogou a fauna, a flora e os costumes capixabas em um inventário único da nossa biodiversidade, unindo o rigor científico à sensibilidade poética.
Na avenida, ao longo de suas 20 alas e três carros alegóricos, a MUG apresentou Teresa como uma figura que desafiou as limitações impostas às mulheres de sua época para se tornar uma agente de memória e reflexão. Algumas das representações capixabas foram os colibris, borboletas e orquídeas.
Do olhar estrangeiro fascinado pela exuberância da Mata Atlântica ao alerta contemporâneo sobre a vulnerabilidade desse patrimônio natural, o desfile utilizou o diário da princesa como um guia para exaltar um Espírito Santo pulsante, mas que hoje clama por preservação e consciência ambiental.
Imperatriz do Forte
A Imperatriz do Forte, quinta e última escola a cruzar o Sambão do Povo na primeira noite do Carnaval de Vitória 2026, transformou a avenida em um imenso terreiro com o enredo “Xirê: Festejo às Raízes”. Sob a assinatura do carnavalesco Marcus Paulo, a agremiação do Forte São João e do Romão promoveu uma celebração das matrizes africanas Jeje, Banto e Ketu, utilizando o conceito do “Xirê” (o brincar em roda) como um elo entre o mundo espiritual e o terreno, exaltando a dança e o tambor como ferramentas de conexão ancestral.
A escola, que teve problemas em suas alegorias nesta semana por causa das fortes chuvas e também imprevistos com fantasias, levou 20 alas e quatro alegorias para a avenida. A “Verde e Rosa” apresentou uma estética decolonial que resgatou a memória de corpos que, embora arrancados de suas terras, mantiveram o axé vivo através do ritmo.
Dos antigos reinos de Ifé e Oyó às rodas de jongo e capoeira que moldaram a identidade capixaba, o desfile reafirmou o samba como um altar de liberdade. A bateria “Berço do Samba” assumiu o papel de regente desse rito, fazendo ecoar os toques de Rum, Rumpi e Lê para encerrar a noite com uma poderosa afirmação de resistência e fé em movimento.

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