Atualizado em 03/04/2025 – 15:57
O assessor da Câmara de Vereadores de Vitória, Luiz Nicoletti, preso nesta terça-feira (1) suspeito de envolvimento no financiamento de tráfico de drogas na Grande Vitória, chegou a enviar um total de R$ 45 mil indiretamente a um dos traficantes ligados ao Primeiro Comando de Vitória (PCV), em 2022. A informação consta no processo do Ministério Público do Estado do Espírito Santo (MPES), responsável pela operação. Ele está preso no Centro de Triagem de Viana.
Nicoletti foi detido em casa no início da manhã desta terça, em uma ação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO-CENTRAL) e com apoio de forças policiais. O mandado de prisão preventiva foi cumprido após decisão judicial expedida pela 2ª Vara Criminal de Vitória. Ele era assessor da equipe do presidente da Câmara de Vereadores da capital, Anderson Goggi Rodrigues (PP), segundo o MPES, e foi exonerado pelo vereador horas depois da operação.
De acordo com o Ministério Público, Nicoletti enviava dinheiro indiretamente a João Gabriel Coitinho Maciel, conhecido como João do Gás, preso desde dezembro de 2022 após ser pego na Operação Caça Fantasma, também no MPES, que prendeu pessoas ligadas ao PCV.
Em imagem publicada em outubro de 2021 na rede social Instagram (foto de destaque da reportagem), Luiz Nicoletti posa com João Gabriel Maciel e uma garrafa de bebida alcoólica com a seguinte legenda: “História é assim, tem quem faz e tem quem conta!!! Obrigado por tudo #amigo #irmao #socio #patrao #deusnocomando #quemnosprotegenãodorme”. A foto foi enviada à reportagem pelo MPES.
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O que aponta a investigação
O MPES chegou a Luiz Nicoletti após a Operação Mosaico, originariamente realizada pela Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (FICCO), coordenada pela Polícia Federal de maio a agosto de 2022. Entretanto, os envolvidos também foram denunciados pelo Ministério Público. Nesta ação, chegou-se primeiramente aos nomes de João Gabriel Coitinho Maciel e Ramon Coelho dos Santos como associados “para o fim de praticar, reiteradamente, o tráfico de substâncias entorpecentes.”
Quando João Gabriel foi preso na Operação Caça Fantasma, o celular dele foi apreendido e nele foram encontradas conversas incriminadoras entre João e Luiz.
As mensagens trocadas entre os envolvidos indicam que João Gabriel planejava uma viagem a Rondônia para tratar de negócios ilícitos relacionados ao tráfico de drogas. Segundo o MPES, Luiz Nicoletti desempenhou um papel crucial no planejamento financeiro da operação, e, mesmo após a desistência da viagem, ele manteve-se envolvido, gerenciando o envio de quantias de dinheiro.
“A análise dos elementos colhidos revela a existência de uma estrutura criminosa organizada, voltada para o tráfico de drogas, na qual cada integrante desempenhava uma função específica e interligada, visando à aquisição, ao transporte, à distribuição e ao financiamento do entorpecente”, diz o relatório do Ministério Público.


Matemático e Kinder, citados na conversa acima, são Italo da Costa Santos Sabino e Rodrigo Matheus Pereira Costa, respectivamente, denunciados no âmbito da Operação Caça Fantasma e ligados ao tráfico de drogas, de forma associada João Gabriel e outros, sob as ordens diretas de Fernando Moraes Pereira Pimenta, conhecido como Marujo, uma das principais lideranças do PCV e que está preso na Penitenciária Federal em Catanduvas, no Oeste do Paraná.
Ainda na conversa, é possível perceber que Luiz estava apreensivo com a transferência do dinheiro, que seria para dar entrada na compra de uma apartamento, mas disse que faria isso por confiar em João Gabriel: “Só estou entrando porque é com você”, escreveu.
Inicialmente, Luiz Nicoletti foi citado no processo como alguém que teria apenas facilitado transações
financeiras suspeitas para João Gabriel. Contudo, as novas evidências obtidas a partir da extração do celular de João revelaram que Luiz participou diretamente de grandes transações em maio de 2022 – que somam R$ 45 mil – para Raniel Bispo, identificado como parte do esquema.

“Nesse sentido, nas mesmas circunstâncias de tempo e local dos fatos narrados na denúncia, Luiz Nicoletti financiou a prática de crimes de tráfico de drogas, previsto no artigo 33, caput, da Lei 11.343/2006, garantindo que parte dos recursos necessários para a sustentação logística do esquema ilícito. A extração dos dados do telefone celular de João Gabriel revelou que em uma das conversas, Luiz Nicoletti realizou a transferência indireta de valores para João Gabriel, num total de R$ 45.000,00 para adquirir drogas, valor que fazia parte da engrenagem financeira sustentada por João Gabriel para manter a traficância ativa”, diz trecho do processo.
Assessor na Câmara de Vitória
Luiz Nicoletti foi assessor pleno comissionado da Câmara de Vereadores de Vitória, admitido em julho de 2022, conforme consta no Portal de Transparência, com salário que ultrapassava R$ 5,7 mil ao mês.
De acordo com o Ministério Público, ele atualmente atuava como assessor da equipe do presidente da Câmara, vereador Anderson Goggi (PP). A exoneração dele foi publicada no Diário Oficial da CMV algumas horas após a prisão.
O VIXFeed não conseguiu contato com a defesa de Nicoletti, mas está aberta a escutar o outro lado da história. Manifestações oficiais podem ser enviadas para o e-mail [email protected].
A reportagem procurou também o gabinete do vereador Anderson Goggi Rodrigues, mas até o fechamento do texto não houve resposta.
A Câmara de Vereadores de Vitória também foi procurada e enviou a seguinte nota:
“A Câmara Municipal de Vitória informa que o ex-servidor Luiz Nicoletti foi nomeado em 2022 para a estrutura da Casa. Assim que a atual gestão tomou conhecimento dos fatos, adotou as providências cabíveis e solicitou sua exoneração. A Presidência reforça seu compromisso com a integridade no serviço público e reitera que eventuais condutas alheias às suas funções não refletem os princípios que norteiam esta instituição.”

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